Seu amor me persegue
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Tento fugir, mas é inútil, - seu amor me persegue;
Seu amor é a excalibur que partiu meu coração;
Não quero fugir desse amor que nutri a emoção;
Só o tempo nos dirá o que a razão não concebe.
Sou um prisioneiro em fuga, mas não quero fugir;
Seu amor é meu algoz a quem tanto quero amar;
É meu inimigo mortal que eu não consigo odiar;
É uma sensação de medo que dá prazer de sentir.
Meu coração é uma maçã, esta maçã é um alvo;
Que a flecha de Guilherme Teu acertou em cheio;
Estou mortalmente ferido na alma, mas estou salvo.
Se seu amor é a salvação, então nesse amor eu creio;
Mas se for a perdição, para este inferno eu salto;
Quero nascer n’outro mundo para te amar sem receio.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Ditadura é o seu fim
Ditadura é o seu fim.
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Assim como Sadhan me lembra Satã
Com a ditadura não é diferente
Pois é uma forma de governo
pungente]
Hitler não passou de um ditador afã
O mundo, assim como a França, não quer um rei
Nosso Deus majestoso e soberano é um só
Luís XVI e Maria Antonieta sucumbiram,
oh dó!]
A bastilha, terror do proletariado, ah, isso eu sei
Senhores opressores não subestimem minha inteligência
O povo sofre com sua ditadura e repudia sua negligência
Sou livre como um pássaro e como um pássaro quero voar
Ditadores repulsivos fiquem longe de mim
Pois sendo anarquista eu os odeio até o fim
Ditadura com o meu ódio quero te repudiar
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Assim como Sadhan me lembra Satã
Com a ditadura não é diferente
Pois é uma forma de governo
pungente]
Hitler não passou de um ditador afã
O mundo, assim como a França, não quer um rei
Nosso Deus majestoso e soberano é um só
Luís XVI e Maria Antonieta sucumbiram,
oh dó!]
A bastilha, terror do proletariado, ah, isso eu sei
Senhores opressores não subestimem minha inteligência
O povo sofre com sua ditadura e repudia sua negligência
Sou livre como um pássaro e como um pássaro quero voar
Ditadores repulsivos fiquem longe de mim
Pois sendo anarquista eu os odeio até o fim
Ditadura com o meu ódio quero te repudiar
Sempre lindas mulheres
Sempre lindas mulheres
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Eu amo as mulheres, eu as amarei eternamente
Mulheres gostosas, atraentes e envolventes sempre
O beijo da mulher me apaixona ardentemente
É muito deliciosa uma bela mulher à minha frente
Sempre lindas mulheres;
A mulher é linda, seja loira ou morena, é sempre gostosa
Mulher alta, baixa, gorda ou magra, é um tesão
Se for virgem, maravilha!Se não for, maravilhosa
Todas elas eu amo, e estão sempre no meu coração
Sempre lindas mulheres;
A mulher canta e me encanta, sem ela sou um nada
Sem ela não há amor, sexo e paixão, é o fim
Não é sonho ou ilusão, é um lindo conto de fada
A mulher é maravilhosa e quero-a para mim
Sempre lindas mulheres;
Não há magia e nem encanto, a mulher é uma beleza
Sem elas não posso viver, com elas eu quero morrer
Sem a mulher tudo é terror e agonia, é só tristeza
Eu as amo e as protejo, este é o meu dever
Sempre lindas mulheres;
Eu quero gritar para o mundo inteiro ouvir
Te amo gostosa, maravilhosa, - mulher doçura
Lindos olhos atraentes determinados a seduzir
É a mulher com seu olhar cheio de ternura
Sempre lindas mulheres;
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Eu amo as mulheres, eu as amarei eternamente
Mulheres gostosas, atraentes e envolventes sempre
O beijo da mulher me apaixona ardentemente
É muito deliciosa uma bela mulher à minha frente
Sempre lindas mulheres;
A mulher é linda, seja loira ou morena, é sempre gostosa
Mulher alta, baixa, gorda ou magra, é um tesão
Se for virgem, maravilha!Se não for, maravilhosa
Todas elas eu amo, e estão sempre no meu coração
Sempre lindas mulheres;
A mulher canta e me encanta, sem ela sou um nada
Sem ela não há amor, sexo e paixão, é o fim
Não é sonho ou ilusão, é um lindo conto de fada
A mulher é maravilhosa e quero-a para mim
Sempre lindas mulheres;
Não há magia e nem encanto, a mulher é uma beleza
Sem elas não posso viver, com elas eu quero morrer
Sem a mulher tudo é terror e agonia, é só tristeza
Eu as amo e as protejo, este é o meu dever
Sempre lindas mulheres;
Eu quero gritar para o mundo inteiro ouvir
Te amo gostosa, maravilhosa, - mulher doçura
Lindos olhos atraentes determinados a seduzir
É a mulher com seu olhar cheio de ternura
Sempre lindas mulheres;
Pensamentos de um renegado
Pensamentos de um renegado.
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Eu já não sei mais quem sou, ou talvez, nunca soube;
Eu já não sei mais se sou feliz, ou talvez, nunca fui;
Tudo em minha volta é obscuro, é medonho e sinistro;
Sou um homem cujo ódio o coração enegreceu;
Sou a ovelha negra que se afastou da luz divina;
É tudo tão simples e ao mesmo tempo tão complicado;
Minha alma é podre, - sou desprezível e repulsivo;
Sou um invólucro que foi desprezado por Deus e o Diabo;
Uma alma que vagueia sem rumo pelo espaço;
Sem lugar no Paraíso ou no Inferno, no Céu ou na Terra;
Se algum dia já fui feliz, ah! Foi há muito tempo;
De tempos em tempos, vidas vêm e se vão;
Assim como minhas lembranças e meus sentimentos;
Minha vida e meus sentimentos se foram para sempre;
Momentos felizes que passaram e não voltam mais;
Ah!... Tempos bons como eu queria que vocês voltassem;
Um sentimento de rancor foi tudo o que restou em mim;
Sinto uma angústia preenchendo o meu vácuo;
Este mal que me apodera não é um mal físico;
Não é psicológico, não é espiritual, - eu não sei explicar;
O tempo passa devagar e o padecimento é maçante;
Sem dúvida, descobri a agonia dos condenados!
O sofrimento eterno dos condenados ao próprio sofrimento eterno;
Um bastardo desprezado, desdenhosamente, pelo universo;
Estou amargo, ressentido e sinto vontade de sumir;
Pensamentos maus alimentam meu sentimento de ódio;
Eu quero explodir, desaparecer e virar poeira cósmica;
Mas gostaria de renascer num lugar sem sofrimento;
Onde não tivesse dor e as pessoas se amassem;
Porém, não sei se me acostumaria com tanta monotonia;
Eu pareço um idiota, ou talvez, mais confuso do que penso;
Enfim, queria acordar e descobrir que estou sonhando;
Deus!... Diabo!... Qualquer um, por que Vós não me respondeis!?...
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Eu já não sei mais quem sou, ou talvez, nunca soube;
Eu já não sei mais se sou feliz, ou talvez, nunca fui;
Tudo em minha volta é obscuro, é medonho e sinistro;
Sou um homem cujo ódio o coração enegreceu;
Sou a ovelha negra que se afastou da luz divina;
É tudo tão simples e ao mesmo tempo tão complicado;
Minha alma é podre, - sou desprezível e repulsivo;
Sou um invólucro que foi desprezado por Deus e o Diabo;
Uma alma que vagueia sem rumo pelo espaço;
Sem lugar no Paraíso ou no Inferno, no Céu ou na Terra;
Se algum dia já fui feliz, ah! Foi há muito tempo;
De tempos em tempos, vidas vêm e se vão;
Assim como minhas lembranças e meus sentimentos;
Minha vida e meus sentimentos se foram para sempre;
Momentos felizes que passaram e não voltam mais;
Ah!... Tempos bons como eu queria que vocês voltassem;
Um sentimento de rancor foi tudo o que restou em mim;
Sinto uma angústia preenchendo o meu vácuo;
Este mal que me apodera não é um mal físico;
Não é psicológico, não é espiritual, - eu não sei explicar;
O tempo passa devagar e o padecimento é maçante;
Sem dúvida, descobri a agonia dos condenados!
O sofrimento eterno dos condenados ao próprio sofrimento eterno;
Um bastardo desprezado, desdenhosamente, pelo universo;
Estou amargo, ressentido e sinto vontade de sumir;
Pensamentos maus alimentam meu sentimento de ódio;
Eu quero explodir, desaparecer e virar poeira cósmica;
Mas gostaria de renascer num lugar sem sofrimento;
Onde não tivesse dor e as pessoas se amassem;
Porém, não sei se me acostumaria com tanta monotonia;
Eu pareço um idiota, ou talvez, mais confuso do que penso;
Enfim, queria acordar e descobrir que estou sonhando;
Deus!... Diabo!... Qualquer um, por que Vós não me respondeis!?...
O matador da lenda reviveu: o avatar do estripador
O matador da lenda reviveu: o avatar do estripador.
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Acredito que não precisarei falar muita coisa sobre este assunto, pois estou certo que muitas pessoas conhecem ou já ouviram falar da história do célebre serial killer Jack, o estripador. Mas, se por ventura, vós que me ledes, não o conhecerdes, falarei um pouco desta história para vós.
Na segunda metade do ano de 1888, o miserável bairro de Whitechapel, em Londres, foi aterrorizado por um assassino que recebeu o pseudônimo de Jack, o estripador. Sua verdadeira identidade nunca foi descoberta e este pseudônimo foi dado através de uma carta de um indivíduo que se dizia ser o assassino.
Jack, o estripador, tinha como característica notória sempre conseguir escapar impune, e suas vítimas eram mulheres que trabalhavam como meretrizes.
Os crimes eram cometidos em lugares públicos e semidesertos, as vítimas tinham suas gargantas cortadas, na seqüência o cadáver sofria mutilações no abdômen e em outras partes do corpo e os órgãos internos eram removidos.
Especula-se que o assassino tinha conhecimentos médicos ou cirúrgicos, ou que fosse um açougueiro, devido à natureza dos ferimentos.
Não se sabe ao certo o número de vítimas de Jack, o estripador, no entanto, a lista mais aceita é a chamada “as cinco principais” que são:
Mary Ann Nichols nasceu no dia 26.08.1845 em foi morta em 31.08.1888, uma sexta-feira.
Annie Chapman nasceu em Setembro de 1841 e foi morta em 08.12.1888, um Sábado.
Elizabeth stride nasceu na Suécia no dia 27.11.1843 e foi morta em 30.09.1888, um Domingo.
Catherine Eddowes nasceu no dia 14.04.1842 e foi morta em 30.09.1888, também num Domingo.
Mary Jane Kelly, supostamente nascida na Irlanda em 1863 e foi morta em 09.11.1888, uma Sexta-feira.
Os mistérios desses crimes nunca foram desvendados e, dos muitos suspeitos perseguidos e interrogados pela polícia britânica, três deles destacaram-se:
O judeu polaco Aaxon Kosminski, o advogado Montague John Druit e o médico russo homicida Michael Ostrog. O fato é que nenhum dos suspeitos foi comprovadamente culpado e a identidade de Jack, o estripador, nunca foi descoberta. Pois como já falei, este assassino tinha como principal característica escapar impune. Estas informações, por eu citadas, o leitor encontrará em qualquer meio de comunicação, eu as mencionei porque fizeram parte da minha viagem a Londres.
Isso mesmo, eu cometi esta ousadia, tudo com o propósito de tornar-me famoso, descobrindo a identidade secreta do estripador. Especulações e mitos sobre este assunto não faltaram, entretanto, o mistério nunca foi esclarecido, mas eu estava disposto a desvendá-lo.
Parentes e amigos pediram, imploraram, suplicaram para eu não me envolver nesse assunto, alegando não haver necessidade alguma de mexer com esta história sinistra, mas desde minha infância, eu tenho a teimosia como uma virtude.
Ignorei as súplicas de meus parentes e amigos, e viajei para Londres, prometendo voltar só quando desvendasse o mistério e descobrisse a identidade secreta de Jack, o estripador.
Chegando a Londres hospedei-me num hotel próximo ao bairro de Whitechapel. Um lugar sombrio e assustador, onde parecia que o terror reinava, mesmo passado mais de um século dos crimes.
Peguei o material de pesquisa para saber por onde começar. Li a lista das vítimas, a dos suspeitos e dos lugares onde supostamente o estripador teria agido. Um caso que chamou minha atenção, e que foi ignorado pela polícia na época, foi a pichação da Rua Gouston, que dizia: “The juwes are not the men that will be blamend for nothing”, (Os judeus não são os homens que levarão a culpa sem motivo). Mas inexplicavelmente o chefe de polícia Charles Warren ordenou que apagassem.
Talvez esta tenha sido a única pista deixada pelo estripador.Chegaram a acreditar que o assassino fosse um judeu perseguido na época.
Bom, meu propósito era desvendar os mistérios e ficar famosos, mas sabia que não seria uma tarefa fácil. Já havia passado muito tempo, todos daquela época morreram e eu não encontraria uma única testemunha.
Mas eu contava com um ótimo trunfo porque pratico psicagogia (1), então planejei a seguinte estratégia: ir aos locais onde supostamente o estripador teria agido e lá fazer o ritual de evocação das almas dos mortos para ver se os espíritos das vítimas, ou até mesmo do assassino, fariam algum contato comigo. Assim, eu descobriria a identidade secreta do estripador e desvendaria o mistério entrando para história como: “O homem que desmascarou Jack, o estripador”. E assim o fiz.
Por diversas noites, andei pelas proximidades de Whitechapel, entre becos, esquinas e ruas sem saídas. Um lugar extremamente obscuro. Tentei evocar algum espírito, mas nenhum se manifestou.
Eu tinha costume de praticar psicagogia e o que me impressionou foi que das outras vezes tudo ocorrera bem comigo. Mas desta vez foi diferente, senti um profundo mal estar, tontura e a visão turva.
Não sei explicar ao certo, mas sentia como se meu espírito fosse ameaçado por outro espírito maligno, como se ele quisesse apossar-se do meu corpo. Houve ocasiões que eu cheguei a desmaiar.
Nesse momento, fiquei pensando se a natureza desses fatos tinha alguma ligação com o meu envolvimento nessa história macabra. Por um momento, cheguei a lamentar por não ceder às súplicas dos meus amigos.
Mas agora que já estava ali, eu iria até o fim. Uma madrugada, por volta das três horas, eu me encontrava na Rua Buck’s Row, onde supostamente Mary Ann Nichols foi assassinada. Segundo as investigações, Jack agia da seguinte forma:
- Ele aproximava-se calmamente da vítima, conduzia-a até a escuridão e, em seguida, dilacerava sua garganta, mutilava o corpo e removia os órgãos internos. Foi o que aconteceu com a Mary Ann Nichols.
Concentrei-me no ritual de psicagogia, mas novamente nenhum espírito se manifestou. De repente imagens turvas começaram a aparecer em minha mente, formando a imagem de um homem vestido de preto e usando uma capa.
Ele estava atacando uma mulher com uma faca, mas a imagem não tinha uma exatidão nítida, então não consegui ver de quem eram os rostos.
Na seqüência senti uma forte dor de cabeça e creio ter desmaiado por alguns minutos. Quando recuperei os sentidos, estava meio aturdido, levantei cambaleando e meio zonzo.
Dirigi-me ao hotel, mas enquanto caminhava pela rua escura tive a atenção despertada por um pequeno objeto metálico que jazia perto dos latões de lixo na calçada. Aproximei-me e percebi que era uma pequena faca, apanhei-a e, ao tocá-la para ver se o gume estava amolado feri levemente o dedo, pois a faca estava extremamente amolada.
Coloquei-a no bolso e voltei para casa pensando: “Mas que coincidência, encontrar uma faca justamente no local onde o estripador fez uma de suas vítimas”.
Não dei importância ao fato, estava cansado, tomei um banho e fui dormir para continuar as investigações na noite seguinte. Aquela faca tinha um fio magnífico, um belo brilho. Quem poderia perder esta faca num local sinistro daqueles?
Deixei a faca de lado, pois tinha muito a investigar, afinal, eu não queria dar viagem perdida. Mas confesso que mexer com esse assunto me incomodava muito, parecia que quanto mais me envolvia nas pesquisas, mais vulnerável às forças malignas e sobrenaturais eu ia ficando. Sentia que às vezes fugia-me o discernimento e eu me via à beira de cometer um desatino.
Aquela faca que eu achei na noite passada, mas que brilho fascinante! A única maneira de descobrir como o estripador pensava e agia era incorporando-se nele, qual seria a sensação de estripar uma meretriz?
Mas espere! (num momento de reflexão), “eu estou aqui para desvendar os mistérios e descobrir a identidade do assassino, não para começar uma nova matança e uma onda de terror”. Embora sóbrio, no mais perfeito do meu juízo, esta idéia diabólica martirizava-me dentro do meu subconsciente.
Apesar de tudo isso, continuei com as investigações procurando por mais pistas. Novamente fui aos locais dos supostos assassinatos e tentei mais uma vez evocar os espíritos, mas não obtive sucesso.
As imagens que eu via não eram nítidas, eram sempre obscuras e eu não conseguia vê-las com clareza. Devido aos esforços, eu sempre acabava desmaiando e nunca me lembrava direito do que acontecera.
Já estava quase desistindo de tudo e pensando em voltar para casa. Foi quando numa manhã, ao acordar, tive a atenção despertada por uma pequena multidão a alguns metros de distância do hotel.
Fui até o local e vi que havia alguns policiais também. Aproximei-me e vi o corpo de uma mulher com a garganta completamente dilacerada. “Impossível!” – pensei comigo mesmo.
Passado mais de um século do massacre do estripador, será que Whitechapel teria agora um novo estripador para aterrorizar suas ruas? O assassino não só cortou a garganta da vítima, mas também arrancou seu coração e, este era um crime típico do estripador.
Algumas testemunhas, que por ali estavam sendo interrogadas pela polícia afirmaram que, assim como em 1888, um homem aproximou-se daquela mulher, supostamente uma meretriz, levou-a para um lugar escuro, semideserto e a matou.
E, como era de se supor, igual ao caso do estripador, ele sumiu sem deixar rastro. “Muito interessante!”, - pensei eu.
Voltei para o hotel acreditando na hipótese de um novo estripador estar agindo em Whitechapel. Coincidentemente, uma coisa me intrigou: a mulher foi morta nas proximidades de Whitechapel, isso na noite passada, justamente no horário em que eu me encontrava no local. Como foi possível que eu não tivesse visto nada de suspeito?
Achei isso muito estranho, mas tinha agora outro mistério para resolver. Porém, eu estava muito inquieto, perturbado, sentia uma pequena mudança alterada no meu temperamento, sabia que algo de estranho estava acontecendo comigo, mas não sabia explicar ao certo o que era.
Cheguei a fazer alusões paralelas aos fatos que ocorreram, pois como já falei, achei muito estranho não ter visto nada pela hora do crime, nenhum elemento suspeito, e recobrar os sentidos de um suposto desmaio.
Com a chegada da noite do dia deste crime, eu me preparava para sair e prosseguir com as investigações, mas antes de sair passei um bom tempo contemplando aquela faca. O gume e a ponta eram magníficos, era uma arma fantástica e com certeza provocaria um estrago irreparável em alguém que fosse ferido por ela.
Guardei-a e fui para a rua, o policiamento estava reforçado, pois a suspeita de um novo estripador alarmara não só as autoridades, mas também toda a população. Entrei numa rua sem saída, escura e com pouco movimento, então, novamente realizei o ritual de psicagogia e, como da outras vezes, o resultado não teve êxito, senti uma forte tontura e creio ter desmaiado por alguns instantes.
Quando acordei e já estava levantando, percebi uma pequena faca ao lado do meu corpo, sim, era a faca que eu deixara guardada no hotel, mas o que ela fazia aqui? – eu pensei.
A faca estava com a ponta ensangüentada, então, não poderia ser a mesma. Será que este sangue é meu? “Fiquei pensando!”.
Impossível, isso não pode ser. Apanhei a faca e voltei para o hotel. Chegando lá, fui até a cômoda do quarto, abri a gaveta e vi que a faca não estava lá. “Estranho!”, - assim pensei.
A faca, que eu aqui guardei, sumiu; entretanto, a que eu encontrei era idêntica a ela, salvo a mancha de sangue. Fui tomar banho e verifiquei meu corpo inteiro, mas não vi nenhum ferimento, pelo menos isso, - eu fiquei aliviado. Mas a faca que eu encontrei suja de sangue só poderia ser a mesma, pois como eu estava tendo estes esquecimentos, eu poderia muito bem ter colocado a faca no bolso do casaco pensando te-la guardado na gaveta da cômoda, sim, isso era perfeitamente possível, mas, e o sangue? De quem poderia ser?
Nessa madrugada, pouco consegui dormir só pensando nesse fato. Ao amanhecer já corria um boato de que outra mulher, também uma suposta meretriz, tinha sido morta na noite passada há alguns metros dali, acho que próximo à rua onde eu estivera.
Outra vez fiquei em suspense, como isso era possível? – eu estava lá próximo e não vi nada de suspeito. Fui ao local onde encontraram o cadáver. A mulher teve a garganta cortada e, segundo a polícia, o assassino arrancou e levou o fígado dela.
Outro crime típico do estripador, ou seja, um crime na seqüência do outro.
Mais uma vez, testemunhas disseram que viram a mulher saindo com um homem calmamente e, ela apareceu morta. Enquanto eu olhava a vítima tive a impressão de já conhecê-la, embora nunca em minha vida tenha visto aquela mulher.
Voltei ao hotel apreensivo e assustado com tudo aquilo que aconteceu, pois havia passado mais de um século do caso do estripador e, agora, com a minha chegada ao local os crimes voltaram a acontecer.
A faca que eu encontrei naquela noite, o fato dela ter aparecido suja de sangue, os estranhos pensamentos e desejos que me envolviam, enfim, tudo isso me aterrorizou.
Ao chegar ao meu apartamento, apanhei a faca ainda suja de sangue. Tentei fazer o ritual ali mesmo para tentar descobrir o que estava acontecendo e, o que contemplei nas minhas visões me apavorou!
A imagem do homem esfaqueando as mulheres, agora tinha tomado um contorno mais nítido e, não pude acreditar no que vi: o rosto do novo e suposto estripador era o meu, sim, era como se eu estivesse à frente de um espelho.
Respirei fundo e soltei o ar levemente, por um instante, pensei que estava enlouquecendo, pois aquilo era um completo absurdo. Fui ao freezer apanhar uma garrafa de cerveja para beber e relaxar, mas, ao abri-lo, por um segundo minha alma saiu do corpo e voltou, fiquei tácito e imóvel pelo terror! Lá dentro, encontravam-se um coração e um fígado humanos, que atribuí na hora serem os órgãos das vítimas encontradas nas últimas noites.
Fechei os olhos e, completamente perturbado, num relance um flashback passou pelo meu cérebro. Lembrei de tudo o que aconteceu nas noites que eu supostamente teria desmaiado: em primeiro lugar, eu sempre andara em posse daquela faca, desde a noite que eu a encontrei.
Lembrei-me com perfeição de conduzir as meretrizes para as ruas escuras e semidesertas, na seqüência, eu as ataquei, tapando suas bocas para elas não gritarem, cortando suas gargantas e mutilando seus corpos. Depois removendo seus órgãos internos.
Mas como isso era possível, meu Deus?! Eu pensei. Como não consegui me lembrar desses acontecimentos antes?
A explicação mais lógica que eu encontrei foi a seguinte: “em sã consciência, eu jamis cometeria uma barbaridade dessas”.
Com certeza, o espírito de Jack, o estripador, ainda penava naquele bairro mal assombrado de Whitechapel e, eu por ser psicagogo, tornara-me presa fácil de ser possuído pelo espírito de Jack, ou seja, de tanto eu remexer e me envolver com este assunto, acabei dominado. “Só poderia ser esta a única explicação!”
E, de uma única coisa eu estava certo: era que eu não poderia ficar ali mais nenhum minuto, pois se me descobrissem, com certeza, eu estaria com graves problemas com as autoridades britânicas.
Bom, mas é claro que eu não fiquei lá para ter certeza se era mesmo o espírito do estripador que me influenciava, ou se realmente eu era um esquizofrênico, - eu não queria confirmar.
Nesse mesmo dia, procurei resolver este problema usando a única característica que eu admirava no estripador, “escapar impune”.
Apanhei os órgãos, piquei-os em pequenos pedaços, coloquei-os numa sacola e fui até a lavanderia do hotel. Por sorte, não havia nenhum empregado ali no momento, peguei uma pequena bacia de alumínio e joguei os miúdos dentro. Apanhando uma garrafa de álcool e despejando todo o conteúdo na bacia, ateei fogo nos miúdos até virarem cinzas.
Em seguida, peguei as cinzas e as lancei no tanque com a torneira aberta que, se precipitaram encanamento abaixo. Com toda a precaução possível, limpei todo o recinto sem deixar nada que pudesse levantar algo de suspeito e voltei ao quarto para arrumar as minhas malas.
E, quanto á fama, deixei-a de lado e voltei para casa imediatamente, jurando nunca mais colocar os pés naquele lugar mal-assombrado.
Ao chegar em casa, parentes e amigos receberam-me calorosamente e fizeram aquele interrogatório. Mas eu disse que eles estavam com a razão, que eu nunca deveria ter ido mexer com esta história e que estava arrependido.
Com certeza, os fatos que ocorreram em Whitechapel, e que eu descrevi para o leitor, eles nem ficaram sabendo.
Mas eu estou muito contente por estar de volta, longe daquele lugar maldito e livre daquela maldição. Só um detalhe que eu ia me esquecendo de falar: apesar de tudo o que aconteceu, eu não me livrei da faca porque eu achei-a muito bonita e ela esta guardada num lugar bem seguro que eu não vou revelar.
Bom, eu passei muito tempo fora e os meus níveis de testosterona estão altíssimos. Se o leitor me dá licença eu tomar um banho para ir á boate à noite. Hâ! Hâ! Hâ!... Essa foi boa, eu, Jack, o estripador parece até piada!
“Olá bonitão” (meretriz falando...), procurando diversão para esta noite, que tal um bom programa?
- Mas é claro que sim, linda senhorita. Olhe, meu carro está logo ali na esquina, quer fazer a gentileza de irmos até lá?
“Claro que sim, - vamos lá”, (meretriz).
Acompanhe-me, por favor.
Ei, um momento, para que esta faca?! (meretriz).
Ei, o que vai fazer?! (meretriz).
Me larga... não... para?! (meretriz).
Socorro... ah... ah...âh!... (meretriz).
Bom, dessa aqui, eu levarei o útero e o rim!
Requiescat in pace.
Fim
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Acredito que não precisarei falar muita coisa sobre este assunto, pois estou certo que muitas pessoas conhecem ou já ouviram falar da história do célebre serial killer Jack, o estripador. Mas, se por ventura, vós que me ledes, não o conhecerdes, falarei um pouco desta história para vós.
Na segunda metade do ano de 1888, o miserável bairro de Whitechapel, em Londres, foi aterrorizado por um assassino que recebeu o pseudônimo de Jack, o estripador. Sua verdadeira identidade nunca foi descoberta e este pseudônimo foi dado através de uma carta de um indivíduo que se dizia ser o assassino.
Jack, o estripador, tinha como característica notória sempre conseguir escapar impune, e suas vítimas eram mulheres que trabalhavam como meretrizes.
Os crimes eram cometidos em lugares públicos e semidesertos, as vítimas tinham suas gargantas cortadas, na seqüência o cadáver sofria mutilações no abdômen e em outras partes do corpo e os órgãos internos eram removidos.
Especula-se que o assassino tinha conhecimentos médicos ou cirúrgicos, ou que fosse um açougueiro, devido à natureza dos ferimentos.
Não se sabe ao certo o número de vítimas de Jack, o estripador, no entanto, a lista mais aceita é a chamada “as cinco principais” que são:
Mary Ann Nichols nasceu no dia 26.08.1845 em foi morta em 31.08.1888, uma sexta-feira.
Annie Chapman nasceu em Setembro de 1841 e foi morta em 08.12.1888, um Sábado.
Elizabeth stride nasceu na Suécia no dia 27.11.1843 e foi morta em 30.09.1888, um Domingo.
Catherine Eddowes nasceu no dia 14.04.1842 e foi morta em 30.09.1888, também num Domingo.
Mary Jane Kelly, supostamente nascida na Irlanda em 1863 e foi morta em 09.11.1888, uma Sexta-feira.
Os mistérios desses crimes nunca foram desvendados e, dos muitos suspeitos perseguidos e interrogados pela polícia britânica, três deles destacaram-se:
O judeu polaco Aaxon Kosminski, o advogado Montague John Druit e o médico russo homicida Michael Ostrog. O fato é que nenhum dos suspeitos foi comprovadamente culpado e a identidade de Jack, o estripador, nunca foi descoberta. Pois como já falei, este assassino tinha como principal característica escapar impune. Estas informações, por eu citadas, o leitor encontrará em qualquer meio de comunicação, eu as mencionei porque fizeram parte da minha viagem a Londres.
Isso mesmo, eu cometi esta ousadia, tudo com o propósito de tornar-me famoso, descobrindo a identidade secreta do estripador. Especulações e mitos sobre este assunto não faltaram, entretanto, o mistério nunca foi esclarecido, mas eu estava disposto a desvendá-lo.
Parentes e amigos pediram, imploraram, suplicaram para eu não me envolver nesse assunto, alegando não haver necessidade alguma de mexer com esta história sinistra, mas desde minha infância, eu tenho a teimosia como uma virtude.
Ignorei as súplicas de meus parentes e amigos, e viajei para Londres, prometendo voltar só quando desvendasse o mistério e descobrisse a identidade secreta de Jack, o estripador.
Chegando a Londres hospedei-me num hotel próximo ao bairro de Whitechapel. Um lugar sombrio e assustador, onde parecia que o terror reinava, mesmo passado mais de um século dos crimes.
Peguei o material de pesquisa para saber por onde começar. Li a lista das vítimas, a dos suspeitos e dos lugares onde supostamente o estripador teria agido. Um caso que chamou minha atenção, e que foi ignorado pela polícia na época, foi a pichação da Rua Gouston, que dizia: “The juwes are not the men that will be blamend for nothing”, (Os judeus não são os homens que levarão a culpa sem motivo). Mas inexplicavelmente o chefe de polícia Charles Warren ordenou que apagassem.
Talvez esta tenha sido a única pista deixada pelo estripador.Chegaram a acreditar que o assassino fosse um judeu perseguido na época.
Bom, meu propósito era desvendar os mistérios e ficar famosos, mas sabia que não seria uma tarefa fácil. Já havia passado muito tempo, todos daquela época morreram e eu não encontraria uma única testemunha.
Mas eu contava com um ótimo trunfo porque pratico psicagogia (1), então planejei a seguinte estratégia: ir aos locais onde supostamente o estripador teria agido e lá fazer o ritual de evocação das almas dos mortos para ver se os espíritos das vítimas, ou até mesmo do assassino, fariam algum contato comigo. Assim, eu descobriria a identidade secreta do estripador e desvendaria o mistério entrando para história como: “O homem que desmascarou Jack, o estripador”. E assim o fiz.
Por diversas noites, andei pelas proximidades de Whitechapel, entre becos, esquinas e ruas sem saídas. Um lugar extremamente obscuro. Tentei evocar algum espírito, mas nenhum se manifestou.
Eu tinha costume de praticar psicagogia e o que me impressionou foi que das outras vezes tudo ocorrera bem comigo. Mas desta vez foi diferente, senti um profundo mal estar, tontura e a visão turva.
Não sei explicar ao certo, mas sentia como se meu espírito fosse ameaçado por outro espírito maligno, como se ele quisesse apossar-se do meu corpo. Houve ocasiões que eu cheguei a desmaiar.
Nesse momento, fiquei pensando se a natureza desses fatos tinha alguma ligação com o meu envolvimento nessa história macabra. Por um momento, cheguei a lamentar por não ceder às súplicas dos meus amigos.
Mas agora que já estava ali, eu iria até o fim. Uma madrugada, por volta das três horas, eu me encontrava na Rua Buck’s Row, onde supostamente Mary Ann Nichols foi assassinada. Segundo as investigações, Jack agia da seguinte forma:
- Ele aproximava-se calmamente da vítima, conduzia-a até a escuridão e, em seguida, dilacerava sua garganta, mutilava o corpo e removia os órgãos internos. Foi o que aconteceu com a Mary Ann Nichols.
Concentrei-me no ritual de psicagogia, mas novamente nenhum espírito se manifestou. De repente imagens turvas começaram a aparecer em minha mente, formando a imagem de um homem vestido de preto e usando uma capa.
Ele estava atacando uma mulher com uma faca, mas a imagem não tinha uma exatidão nítida, então não consegui ver de quem eram os rostos.
Na seqüência senti uma forte dor de cabeça e creio ter desmaiado por alguns minutos. Quando recuperei os sentidos, estava meio aturdido, levantei cambaleando e meio zonzo.
Dirigi-me ao hotel, mas enquanto caminhava pela rua escura tive a atenção despertada por um pequeno objeto metálico que jazia perto dos latões de lixo na calçada. Aproximei-me e percebi que era uma pequena faca, apanhei-a e, ao tocá-la para ver se o gume estava amolado feri levemente o dedo, pois a faca estava extremamente amolada.
Coloquei-a no bolso e voltei para casa pensando: “Mas que coincidência, encontrar uma faca justamente no local onde o estripador fez uma de suas vítimas”.
Não dei importância ao fato, estava cansado, tomei um banho e fui dormir para continuar as investigações na noite seguinte. Aquela faca tinha um fio magnífico, um belo brilho. Quem poderia perder esta faca num local sinistro daqueles?
Deixei a faca de lado, pois tinha muito a investigar, afinal, eu não queria dar viagem perdida. Mas confesso que mexer com esse assunto me incomodava muito, parecia que quanto mais me envolvia nas pesquisas, mais vulnerável às forças malignas e sobrenaturais eu ia ficando. Sentia que às vezes fugia-me o discernimento e eu me via à beira de cometer um desatino.
Aquela faca que eu achei na noite passada, mas que brilho fascinante! A única maneira de descobrir como o estripador pensava e agia era incorporando-se nele, qual seria a sensação de estripar uma meretriz?
Mas espere! (num momento de reflexão), “eu estou aqui para desvendar os mistérios e descobrir a identidade do assassino, não para começar uma nova matança e uma onda de terror”. Embora sóbrio, no mais perfeito do meu juízo, esta idéia diabólica martirizava-me dentro do meu subconsciente.
Apesar de tudo isso, continuei com as investigações procurando por mais pistas. Novamente fui aos locais dos supostos assassinatos e tentei mais uma vez evocar os espíritos, mas não obtive sucesso.
As imagens que eu via não eram nítidas, eram sempre obscuras e eu não conseguia vê-las com clareza. Devido aos esforços, eu sempre acabava desmaiando e nunca me lembrava direito do que acontecera.
Já estava quase desistindo de tudo e pensando em voltar para casa. Foi quando numa manhã, ao acordar, tive a atenção despertada por uma pequena multidão a alguns metros de distância do hotel.
Fui até o local e vi que havia alguns policiais também. Aproximei-me e vi o corpo de uma mulher com a garganta completamente dilacerada. “Impossível!” – pensei comigo mesmo.
Passado mais de um século do massacre do estripador, será que Whitechapel teria agora um novo estripador para aterrorizar suas ruas? O assassino não só cortou a garganta da vítima, mas também arrancou seu coração e, este era um crime típico do estripador.
Algumas testemunhas, que por ali estavam sendo interrogadas pela polícia afirmaram que, assim como em 1888, um homem aproximou-se daquela mulher, supostamente uma meretriz, levou-a para um lugar escuro, semideserto e a matou.
E, como era de se supor, igual ao caso do estripador, ele sumiu sem deixar rastro. “Muito interessante!”, - pensei eu.
Voltei para o hotel acreditando na hipótese de um novo estripador estar agindo em Whitechapel. Coincidentemente, uma coisa me intrigou: a mulher foi morta nas proximidades de Whitechapel, isso na noite passada, justamente no horário em que eu me encontrava no local. Como foi possível que eu não tivesse visto nada de suspeito?
Achei isso muito estranho, mas tinha agora outro mistério para resolver. Porém, eu estava muito inquieto, perturbado, sentia uma pequena mudança alterada no meu temperamento, sabia que algo de estranho estava acontecendo comigo, mas não sabia explicar ao certo o que era.
Cheguei a fazer alusões paralelas aos fatos que ocorreram, pois como já falei, achei muito estranho não ter visto nada pela hora do crime, nenhum elemento suspeito, e recobrar os sentidos de um suposto desmaio.
Com a chegada da noite do dia deste crime, eu me preparava para sair e prosseguir com as investigações, mas antes de sair passei um bom tempo contemplando aquela faca. O gume e a ponta eram magníficos, era uma arma fantástica e com certeza provocaria um estrago irreparável em alguém que fosse ferido por ela.
Guardei-a e fui para a rua, o policiamento estava reforçado, pois a suspeita de um novo estripador alarmara não só as autoridades, mas também toda a população. Entrei numa rua sem saída, escura e com pouco movimento, então, novamente realizei o ritual de psicagogia e, como da outras vezes, o resultado não teve êxito, senti uma forte tontura e creio ter desmaiado por alguns instantes.
Quando acordei e já estava levantando, percebi uma pequena faca ao lado do meu corpo, sim, era a faca que eu deixara guardada no hotel, mas o que ela fazia aqui? – eu pensei.
A faca estava com a ponta ensangüentada, então, não poderia ser a mesma. Será que este sangue é meu? “Fiquei pensando!”.
Impossível, isso não pode ser. Apanhei a faca e voltei para o hotel. Chegando lá, fui até a cômoda do quarto, abri a gaveta e vi que a faca não estava lá. “Estranho!”, - assim pensei.
A faca, que eu aqui guardei, sumiu; entretanto, a que eu encontrei era idêntica a ela, salvo a mancha de sangue. Fui tomar banho e verifiquei meu corpo inteiro, mas não vi nenhum ferimento, pelo menos isso, - eu fiquei aliviado. Mas a faca que eu encontrei suja de sangue só poderia ser a mesma, pois como eu estava tendo estes esquecimentos, eu poderia muito bem ter colocado a faca no bolso do casaco pensando te-la guardado na gaveta da cômoda, sim, isso era perfeitamente possível, mas, e o sangue? De quem poderia ser?
Nessa madrugada, pouco consegui dormir só pensando nesse fato. Ao amanhecer já corria um boato de que outra mulher, também uma suposta meretriz, tinha sido morta na noite passada há alguns metros dali, acho que próximo à rua onde eu estivera.
Outra vez fiquei em suspense, como isso era possível? – eu estava lá próximo e não vi nada de suspeito. Fui ao local onde encontraram o cadáver. A mulher teve a garganta cortada e, segundo a polícia, o assassino arrancou e levou o fígado dela.
Outro crime típico do estripador, ou seja, um crime na seqüência do outro.
Mais uma vez, testemunhas disseram que viram a mulher saindo com um homem calmamente e, ela apareceu morta. Enquanto eu olhava a vítima tive a impressão de já conhecê-la, embora nunca em minha vida tenha visto aquela mulher.
Voltei ao hotel apreensivo e assustado com tudo aquilo que aconteceu, pois havia passado mais de um século do caso do estripador e, agora, com a minha chegada ao local os crimes voltaram a acontecer.
A faca que eu encontrei naquela noite, o fato dela ter aparecido suja de sangue, os estranhos pensamentos e desejos que me envolviam, enfim, tudo isso me aterrorizou.
Ao chegar ao meu apartamento, apanhei a faca ainda suja de sangue. Tentei fazer o ritual ali mesmo para tentar descobrir o que estava acontecendo e, o que contemplei nas minhas visões me apavorou!
A imagem do homem esfaqueando as mulheres, agora tinha tomado um contorno mais nítido e, não pude acreditar no que vi: o rosto do novo e suposto estripador era o meu, sim, era como se eu estivesse à frente de um espelho.
Respirei fundo e soltei o ar levemente, por um instante, pensei que estava enlouquecendo, pois aquilo era um completo absurdo. Fui ao freezer apanhar uma garrafa de cerveja para beber e relaxar, mas, ao abri-lo, por um segundo minha alma saiu do corpo e voltou, fiquei tácito e imóvel pelo terror! Lá dentro, encontravam-se um coração e um fígado humanos, que atribuí na hora serem os órgãos das vítimas encontradas nas últimas noites.
Fechei os olhos e, completamente perturbado, num relance um flashback passou pelo meu cérebro. Lembrei de tudo o que aconteceu nas noites que eu supostamente teria desmaiado: em primeiro lugar, eu sempre andara em posse daquela faca, desde a noite que eu a encontrei.
Lembrei-me com perfeição de conduzir as meretrizes para as ruas escuras e semidesertas, na seqüência, eu as ataquei, tapando suas bocas para elas não gritarem, cortando suas gargantas e mutilando seus corpos. Depois removendo seus órgãos internos.
Mas como isso era possível, meu Deus?! Eu pensei. Como não consegui me lembrar desses acontecimentos antes?
A explicação mais lógica que eu encontrei foi a seguinte: “em sã consciência, eu jamis cometeria uma barbaridade dessas”.
Com certeza, o espírito de Jack, o estripador, ainda penava naquele bairro mal assombrado de Whitechapel e, eu por ser psicagogo, tornara-me presa fácil de ser possuído pelo espírito de Jack, ou seja, de tanto eu remexer e me envolver com este assunto, acabei dominado. “Só poderia ser esta a única explicação!”
E, de uma única coisa eu estava certo: era que eu não poderia ficar ali mais nenhum minuto, pois se me descobrissem, com certeza, eu estaria com graves problemas com as autoridades britânicas.
Bom, mas é claro que eu não fiquei lá para ter certeza se era mesmo o espírito do estripador que me influenciava, ou se realmente eu era um esquizofrênico, - eu não queria confirmar.
Nesse mesmo dia, procurei resolver este problema usando a única característica que eu admirava no estripador, “escapar impune”.
Apanhei os órgãos, piquei-os em pequenos pedaços, coloquei-os numa sacola e fui até a lavanderia do hotel. Por sorte, não havia nenhum empregado ali no momento, peguei uma pequena bacia de alumínio e joguei os miúdos dentro. Apanhando uma garrafa de álcool e despejando todo o conteúdo na bacia, ateei fogo nos miúdos até virarem cinzas.
Em seguida, peguei as cinzas e as lancei no tanque com a torneira aberta que, se precipitaram encanamento abaixo. Com toda a precaução possível, limpei todo o recinto sem deixar nada que pudesse levantar algo de suspeito e voltei ao quarto para arrumar as minhas malas.
E, quanto á fama, deixei-a de lado e voltei para casa imediatamente, jurando nunca mais colocar os pés naquele lugar mal-assombrado.
Ao chegar em casa, parentes e amigos receberam-me calorosamente e fizeram aquele interrogatório. Mas eu disse que eles estavam com a razão, que eu nunca deveria ter ido mexer com esta história e que estava arrependido.
Com certeza, os fatos que ocorreram em Whitechapel, e que eu descrevi para o leitor, eles nem ficaram sabendo.
Mas eu estou muito contente por estar de volta, longe daquele lugar maldito e livre daquela maldição. Só um detalhe que eu ia me esquecendo de falar: apesar de tudo o que aconteceu, eu não me livrei da faca porque eu achei-a muito bonita e ela esta guardada num lugar bem seguro que eu não vou revelar.
Bom, eu passei muito tempo fora e os meus níveis de testosterona estão altíssimos. Se o leitor me dá licença eu tomar um banho para ir á boate à noite. Hâ! Hâ! Hâ!... Essa foi boa, eu, Jack, o estripador parece até piada!
“Olá bonitão” (meretriz falando...), procurando diversão para esta noite, que tal um bom programa?
- Mas é claro que sim, linda senhorita. Olhe, meu carro está logo ali na esquina, quer fazer a gentileza de irmos até lá?
“Claro que sim, - vamos lá”, (meretriz).
Acompanhe-me, por favor.
Ei, um momento, para que esta faca?! (meretriz).
Ei, o que vai fazer?! (meretriz).
Me larga... não... para?! (meretriz).
Socorro... ah... ah...âh!... (meretriz).
Bom, dessa aqui, eu levarei o útero e o rim!
Requiescat in pace.
Fim
A inumação do necrófilo
A inumação do necrófilo
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca
Fiquei perplexo!... Em estado de choque!
Assim fiquei quando, certo dia, ao amanhecer, descobri que uma das sepulturas do meu cemitério havia sido violada. E o que mais me impressionou foi o fato de que o autor desse crime manteve relações sexuais com o cadáver.
Lutei para acreditar que não estava louco e, não obstante, não estava mesmo.
O cadáver era de uma mulher, apresentava já um estado de decomposição e exalava um odor insuportável. Encontrava-se completamente nua e com as pernas escancaradas, havia gotas de sêmen que iam da vagina até a altura dos seios. Por um momento, fiquei ali imóvel e, um sentimento de nojo e terror, acompanhado por um calafrio, gelou-me a espinha.
Retornei meio aturdido ao meu casebre, que ficava nos fundos do cemitério, peguei uma pá, pregos, martelo, uma corda e voltei ao local do crime.
Apanhei o cadáver gelado e podre, deitei-o no caixão com as mãos cruzadas sobre o peito e, em seguida, tampei-o. As travas haviam sido arrebentadas, por isso, tive que pregar a tampa por inteiro. Enrolei a corda ao meio do caixão e, com um grande esforço, conduzi o pesado volume até o fundo da cova e o enterrei.
Nesse mesmo dia não consegui fazer outra coisa, anão ser pensar no incidente que eu presenciara. Pensei em procurar ajuda policial, ou até mesmo, comentar o acontecido com alguém, mas não o fiz. Porque, de certa forma, eu tinha um grande respeito pelos que já morreram, e também, tinha pavor a escândalos. Mas não sei como, nem por que, eu sentia que esse não era o motivo certo pelo qual eu não procurei ajuda.
Por fim, achei melhor pôr um ponto final e esquecer esta história. Mas, durante semanas não consegui me livrar da imagem da morta, à noite, acordava aterrorizado e banhado de suor, tinha a impressão de que, quando dormia, - ela ficava a me vigiar, a velar o meu sono.
Isso quando não tinha a impressão de ouvir o eco de sua gargalhada demoníaca vindo da tumba a percorrer o caminho até o meu quarto.
Uma manhã, quando fui regar as flores dos túmulos, deparei-me com a mesma cena anterior. A sepultura de outra mulher havia sido violada e o cadáver, completamente nu e com as pernas escancaradas, havia sofrido abuso sexual.
Novamente, apanhei a pá, martelo, pregos e voltei pensativo ao local. Enquanto colocava o cadáver podre no caixão, pensei:
“Esse indivíduo só pode ser alguém conhecido, e que, também, conhece muito bem o cemitério”.
E não me enganei nos meus pensamentos, ao depositar o corpo no caixão, percebi algo que parecia uma carteira, meio soterrada no montante de terra. Peguei-a, abri-a, e, finalmente, vi nos documentos quem era o necrófilo que mantinha relações sexuais com meus mortos.
Cornélio: este era o nome do elemento responsável por aquela profanação aterrorizante. Tratava-se de um mau caráter leviano e morava a dois quarteirões do cemitério. Mas é claro!
Como eu não pensei nisso antes? Só poderia ser o maldito Cornélio. Eu o conhecia muito bem, exceto sua perversão sexual.
Confesso que fiquei um pouco surpreso, pois todos os vícios que se possam imaginar – ele tinha, mas sofrer de necrofilia, já era demais.
Pus fim à minha tarefa, cobri com a tampa o caixão, preguei-a, envolvi a corda ao meio dele, conduzi-o até o fundo da cova e o enterrei. Peguei meus instrumentos de trabalho, a carteira de Cornélio e fui para casa.
Ao chegar, abri uma garrafa de rum, acendi um charuto e comecei apensar comigo mesmo: “eu tenho agora em minhas mãos as provas para colocar o miserável na cadeia, sim, é isso mesmo que eu vou fazer”.
A garrafa de rum já estava um pouco menos da metade quando resolvi, finalmente, ir até a polícia. Mas, de repente, hesitei, não sei explicar como, mas pensamentos macabros e sentimentos sombrios apoderaram-se do meu espírito. Dir-se-ia, que eu agora era a perversidade em pessoa.
Decidi não ir até a polícia, e comecei a premeditar um castigo terrível contra o Cornélio. Eu precisava acabar com aquele patife sem deixar nenhum rastro.
Sabendo do seu fraco por excessos e de sua atração por cadáveres, resolvi atraí-lo para uma emboscada sem que ele suspeitasse. Verifiquei se tinha bebida alcoólica suficiente para executar o meu plano diabólico. Ah! Ah! Ah!...
Uma noite, por volta das vinte e duas horas, fui à casa dele, bati palmas, chamei-o e ele apareceu sem desconfiar de nada.
Boa noite – disse eu. – Oh, meu bom amigo Cornélio, queira me perdoar por estar-lhe incomodando a esta hora da noite! Mas, é que já faz algum tempo que tento falar com o senhor e não consigo.
- Sim, em que posso ser útil? – Disse ele.
Bem, eu achei sua carteira na calçada próxima ao cemitério e guardei-a em minha casa. Como não sabia que iria encontrá-lo, deixei-a lá. O senhor quer ter a bondade de acompanhar-me até a minha humilde residência?
- Mas, a essa hora senhor? – Indagou.
Ora, vamos senhor Cornélio. – É rapidinho, não me diga que está com medo dos mortos?
- Não, é claro que não, é que...
Ora, vamos, não há o que temer, o cemitério é um lugar de paz, temos que ter medo dos vivos e não dos mortos.
E seguimos para o cemitério, um lugar onde pessoa nenhuma me visitava, principalmente, à noite.
Passamos por um longo corredor entre os túmulos guiados por uma lamparina até chegarmos em casa. Em nenhum momento, Cornélio demonstrou preocupação e medo, ou desconfiou de nada.
Abri a porta, entramos, pedi que se sentasse e ficasse à vontade enquanto eu ia buscar sua carteira. Peguei a carteira de Cornélio, duas canecas, uma garrafa de rum, um tabuleiro de xadrez e voltei à sala onde ele me esperava.
Aqui está sua carteira, senhor. – Disse eu.
- Obrigado – respondeu. – Bem, já é tarde, eu preciso ir embora.
Não, - eu disse educadamente. Ainda é cedo, fique um pouco mais, eu sou um homem muito solitário e os mortos não me fazem companhia. Por favor, sente-se, tome um pouco de rum comigo e joguemos uma boa partida de xadrez, sim!
- Tudo bem, mas, sem demora.
Perfeito, - sente-se.
Eram quase vinte e três horas. Cornélio havia ganhado duas partidas de xadrez e eu uma. Quando dizia que iria embora, eu encontrava meios de segura-lo, empurrando mais rum no miserável, que já apresentava sinais de embriaguez.
Não se vá ainda, amigo Cornélio. É muito cedo, - o senhor já provou um vinho português da região de Colares, ou um bom vinho espanhol?
- Não – ele respondeu, já com a língua meio enrolada.
Só um instante, que eu vou buscar, - não demoro.
Voltei com uma garrafa de colares e outra de xerez.
Olhe, aqui estão dois dos melhores vinhos do mundo, “experimente”.
Enchi a caneca do desgraçado até à borda e retornamos ao jogo de xadrez.
Os ponteiros do relógio já marcavam uma hora da madrugada, as garrafas de vinho estavam vazias e eu nem me lembrava mais quantas partidas tínhamos jogado.
Cornélio já cambaleava de bêbado e não dizia coisa com coisa, ou melhor, poder-se-ia dizer que só o álcool falava.
Amigo, disse eu por fim-, que tal fecharmos a noite com chave de ouro?! Eu posso contar-lhe um segredo?
“Claro que pode”, - disse o meu amigo com a voz trêmula e a língua enrolada devido aos efeitos do álcool. – Eu tenho verdadeira veneração em praticar sexo com cadáveres, - você acredita?
- Acredito! – Sério mesmo?! – Disse ele com agradável surpresa. “- Eu pensei que só eu tinha esse tipo de fantasia louca!”. Disse ele.
Não, - fique sabendo que eu também adoro! – Que tal irmos praticar uma orgia, com um cadáver lá fora, - o senhor aceita o meu convite?
Hesitou por um momento, mas, aceitou logo em seguida. “- Sim, eu aceito, vamos lá”.
Bem, então, deixe-me pegar alguns instrumentos de que preciso e já volto. Fui ao quarto. Peguei uma pá, martelos, pregos, correntes, um cadeado, um pé-de-cabra, cordas e mais uma garrafa de rum, e voltei à sala.
Enchi as duas canecas, peguei meus instrumentos de trabalho, a lamparina, passei a garrafa de rum para o Cornélio e segui à frente rumo ao cemitério.
Olhe, - logo ali tem a sepultura de uma mulher que foi enterrada como indigente há pouco tempo, vamos até lá?! Disse eu.
Ao chegarmos ao local, - eu disse:
- Sente-se aqui enquanto eu cavo. E Cornélio sentou ao lado do túmulo, tragando o rum no gargalo da garrafa.
Eu, por fim, depositei a lamparina ao lado da cova e comecei a cavar. A terra estava fofa e creio que levei, aproximadamente, uns vinte minutos até o buraco ficar um pouco acima da minha testa.
“Ei amigo Cornélio!?” – gritei!
Pode pular aqui e me ajudar a tirar o caixão da cova, por favor?
Levantou-se cambaleando e entrou na cova. Seguramos o caixão de ponta a ponta pelas alças e suspendemo-lo até a beira do túmulo.
Saímos de dentro da cova e imediatamente peguei o pé-de-cabra e arrebentei as travas do caixão. Ao retirar a tampa, tiramos o corpo de dentro e o odor era insuportável.
O cadáver encontrava-se em longo estado de decomposição, apresentava bolhas de pus em algumas partes do corpo, e também, parte da carne podre grudava na mortalha. O corpo também estava murcho e ressecado, o que não me deixou dúvidas de que tinha um lugar de sobra para mais um ocupante no caixão.
E não me enganei nos meus cálculos: - Cornélio era um homem pequeno, franzino e com certeza, caberia lá dentro com um pouquinho de esforço.
Senti um profundo enjôo e vontade de vomitar, ao passo que Cornélio olhava o cadáver com desejo e fascinação.
Você primeiro amigo Cornélio, enquanto eu descanso um pouco, - depois eu vou.
Cornélio passou-me a garrafa de rum e aproximou-se do cadáver. Despiu-a da cintura para baixo, escancarou as pernas dela, abriu o zíper de sua calça, deitou-se por cima da carne podre e penetrou-a.
Quando ele já estava no coito com o cadáver, - eu disse:
- Senhor Cornélio, eu sou um pouco tímido e reservado, vou cobrir o caixão com a tampa para o senhor ficar mais à vontade (no intuito de dispersar a atenção dele).
Ah, pouco deu atenção ao que eu falei, estava bêbado e excitado demais para perceber o terror e o perigo que encontrava-se à sua volta. “O homem é o único ser vivo que sabe que vai morrer, mas, é lamentável, que não sintamos quando a morte está bem próxima de nós”.
Enquanto ele gozava dos prazeres de sua necrofilia, apanhei o pé-de-cabra, segurando-o, fixamente, com ambas as mãos.
Aproximei-me dele, sorrateiramente e, desferi-lhe um golpe certeiro na nuca, que abriu acompanhado por um estalo!
Emitiu alguns gemidos: - Hâ... Hâ...Hâ..., e calou-se. Não sabia se o matara.
Com toda a calma possível, coloquei o cadáver de volta no caixão, depositei Cornélio por cima deste, peguei a tampa, cobri o caixão e fiquei sentado em cima, bebendo o restante do rum.
Apanhei o martelo e os pregos e, comecei a pregar a tampa do caixão. Certifiquei-me de que a tampa estava bem pregada, quando ouvi um gemido abafado vindo de dentro do caixão, mas não era um gemido de orgasmo ou de prazer. Era um gemido de terror misturado com angústia, por um momento, um calafrio percorreu-me todo o corpo.
Cheguei a sentir um desconforto ou remorso, mas não passou de um sentimento efêmero, pois, logo em seguida, meu espírito permaneceu sereno com a alma de um recém-nascido.
Eram quase duas horas da madrugada, eu estava cansado, mas precisava terminar a minha tarefa. Envolvi a corrente em volta do caixão e passei o cadeado, pois queria ter certeza de quê, se ele estivesse vivo não poderia sair dali jamais.
Enrolei a corda ao meio do caixão, quando ouvi outro grito abafado emitido lá de dentro:
- Socorro... Tire-me daqui... – Eu lhe imploro!
Com um grande esforço fui descarregando a corda amarrada ao caixão até o fundo da cova. Peguei a pá e comecei a jogar terra no buraco, quando outra vez, ouvi os gritos abafados de dentro do buraco, mas agora iam ficando mais distantes.
Quando joguei a última pá com terra no túmulo, fiquei plenamente satisfeito. Um denso nevoeiro cobria o cemitério e caía uma garoa fina e gélida. Tomei o último gole de rum, joguei uma coroa de rosas no túmulo, peguei meus instrumentos de trabalho, a lamparina e fui para casa dormir tranqüilamente.
E até hoje, sessenta anos depois, eu me encontro aqui, num abrigo para idosos, já no fim da vida e com este segredo guardado a sete palmos de terra.
Ora, para quê procurar a polícia, se eu podia punir o miserável à minha própria maneira!
Não concordam?...
Fim
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca
Fiquei perplexo!... Em estado de choque!
Assim fiquei quando, certo dia, ao amanhecer, descobri que uma das sepulturas do meu cemitério havia sido violada. E o que mais me impressionou foi o fato de que o autor desse crime manteve relações sexuais com o cadáver.
Lutei para acreditar que não estava louco e, não obstante, não estava mesmo.
O cadáver era de uma mulher, apresentava já um estado de decomposição e exalava um odor insuportável. Encontrava-se completamente nua e com as pernas escancaradas, havia gotas de sêmen que iam da vagina até a altura dos seios. Por um momento, fiquei ali imóvel e, um sentimento de nojo e terror, acompanhado por um calafrio, gelou-me a espinha.
Retornei meio aturdido ao meu casebre, que ficava nos fundos do cemitério, peguei uma pá, pregos, martelo, uma corda e voltei ao local do crime.
Apanhei o cadáver gelado e podre, deitei-o no caixão com as mãos cruzadas sobre o peito e, em seguida, tampei-o. As travas haviam sido arrebentadas, por isso, tive que pregar a tampa por inteiro. Enrolei a corda ao meio do caixão e, com um grande esforço, conduzi o pesado volume até o fundo da cova e o enterrei.
Nesse mesmo dia não consegui fazer outra coisa, anão ser pensar no incidente que eu presenciara. Pensei em procurar ajuda policial, ou até mesmo, comentar o acontecido com alguém, mas não o fiz. Porque, de certa forma, eu tinha um grande respeito pelos que já morreram, e também, tinha pavor a escândalos. Mas não sei como, nem por que, eu sentia que esse não era o motivo certo pelo qual eu não procurei ajuda.
Por fim, achei melhor pôr um ponto final e esquecer esta história. Mas, durante semanas não consegui me livrar da imagem da morta, à noite, acordava aterrorizado e banhado de suor, tinha a impressão de que, quando dormia, - ela ficava a me vigiar, a velar o meu sono.
Isso quando não tinha a impressão de ouvir o eco de sua gargalhada demoníaca vindo da tumba a percorrer o caminho até o meu quarto.
Uma manhã, quando fui regar as flores dos túmulos, deparei-me com a mesma cena anterior. A sepultura de outra mulher havia sido violada e o cadáver, completamente nu e com as pernas escancaradas, havia sofrido abuso sexual.
Novamente, apanhei a pá, martelo, pregos e voltei pensativo ao local. Enquanto colocava o cadáver podre no caixão, pensei:
“Esse indivíduo só pode ser alguém conhecido, e que, também, conhece muito bem o cemitério”.
E não me enganei nos meus pensamentos, ao depositar o corpo no caixão, percebi algo que parecia uma carteira, meio soterrada no montante de terra. Peguei-a, abri-a, e, finalmente, vi nos documentos quem era o necrófilo que mantinha relações sexuais com meus mortos.
Cornélio: este era o nome do elemento responsável por aquela profanação aterrorizante. Tratava-se de um mau caráter leviano e morava a dois quarteirões do cemitério. Mas é claro!
Como eu não pensei nisso antes? Só poderia ser o maldito Cornélio. Eu o conhecia muito bem, exceto sua perversão sexual.
Confesso que fiquei um pouco surpreso, pois todos os vícios que se possam imaginar – ele tinha, mas sofrer de necrofilia, já era demais.
Pus fim à minha tarefa, cobri com a tampa o caixão, preguei-a, envolvi a corda ao meio dele, conduzi-o até o fundo da cova e o enterrei. Peguei meus instrumentos de trabalho, a carteira de Cornélio e fui para casa.
Ao chegar, abri uma garrafa de rum, acendi um charuto e comecei apensar comigo mesmo: “eu tenho agora em minhas mãos as provas para colocar o miserável na cadeia, sim, é isso mesmo que eu vou fazer”.
A garrafa de rum já estava um pouco menos da metade quando resolvi, finalmente, ir até a polícia. Mas, de repente, hesitei, não sei explicar como, mas pensamentos macabros e sentimentos sombrios apoderaram-se do meu espírito. Dir-se-ia, que eu agora era a perversidade em pessoa.
Decidi não ir até a polícia, e comecei a premeditar um castigo terrível contra o Cornélio. Eu precisava acabar com aquele patife sem deixar nenhum rastro.
Sabendo do seu fraco por excessos e de sua atração por cadáveres, resolvi atraí-lo para uma emboscada sem que ele suspeitasse. Verifiquei se tinha bebida alcoólica suficiente para executar o meu plano diabólico. Ah! Ah! Ah!...
Uma noite, por volta das vinte e duas horas, fui à casa dele, bati palmas, chamei-o e ele apareceu sem desconfiar de nada.
Boa noite – disse eu. – Oh, meu bom amigo Cornélio, queira me perdoar por estar-lhe incomodando a esta hora da noite! Mas, é que já faz algum tempo que tento falar com o senhor e não consigo.
- Sim, em que posso ser útil? – Disse ele.
Bem, eu achei sua carteira na calçada próxima ao cemitério e guardei-a em minha casa. Como não sabia que iria encontrá-lo, deixei-a lá. O senhor quer ter a bondade de acompanhar-me até a minha humilde residência?
- Mas, a essa hora senhor? – Indagou.
Ora, vamos senhor Cornélio. – É rapidinho, não me diga que está com medo dos mortos?
- Não, é claro que não, é que...
Ora, vamos, não há o que temer, o cemitério é um lugar de paz, temos que ter medo dos vivos e não dos mortos.
E seguimos para o cemitério, um lugar onde pessoa nenhuma me visitava, principalmente, à noite.
Passamos por um longo corredor entre os túmulos guiados por uma lamparina até chegarmos em casa. Em nenhum momento, Cornélio demonstrou preocupação e medo, ou desconfiou de nada.
Abri a porta, entramos, pedi que se sentasse e ficasse à vontade enquanto eu ia buscar sua carteira. Peguei a carteira de Cornélio, duas canecas, uma garrafa de rum, um tabuleiro de xadrez e voltei à sala onde ele me esperava.
Aqui está sua carteira, senhor. – Disse eu.
- Obrigado – respondeu. – Bem, já é tarde, eu preciso ir embora.
Não, - eu disse educadamente. Ainda é cedo, fique um pouco mais, eu sou um homem muito solitário e os mortos não me fazem companhia. Por favor, sente-se, tome um pouco de rum comigo e joguemos uma boa partida de xadrez, sim!
- Tudo bem, mas, sem demora.
Perfeito, - sente-se.
Eram quase vinte e três horas. Cornélio havia ganhado duas partidas de xadrez e eu uma. Quando dizia que iria embora, eu encontrava meios de segura-lo, empurrando mais rum no miserável, que já apresentava sinais de embriaguez.
Não se vá ainda, amigo Cornélio. É muito cedo, - o senhor já provou um vinho português da região de Colares, ou um bom vinho espanhol?
- Não – ele respondeu, já com a língua meio enrolada.
Só um instante, que eu vou buscar, - não demoro.
Voltei com uma garrafa de colares e outra de xerez.
Olhe, aqui estão dois dos melhores vinhos do mundo, “experimente”.
Enchi a caneca do desgraçado até à borda e retornamos ao jogo de xadrez.
Os ponteiros do relógio já marcavam uma hora da madrugada, as garrafas de vinho estavam vazias e eu nem me lembrava mais quantas partidas tínhamos jogado.
Cornélio já cambaleava de bêbado e não dizia coisa com coisa, ou melhor, poder-se-ia dizer que só o álcool falava.
Amigo, disse eu por fim-, que tal fecharmos a noite com chave de ouro?! Eu posso contar-lhe um segredo?
“Claro que pode”, - disse o meu amigo com a voz trêmula e a língua enrolada devido aos efeitos do álcool. – Eu tenho verdadeira veneração em praticar sexo com cadáveres, - você acredita?
- Acredito! – Sério mesmo?! – Disse ele com agradável surpresa. “- Eu pensei que só eu tinha esse tipo de fantasia louca!”. Disse ele.
Não, - fique sabendo que eu também adoro! – Que tal irmos praticar uma orgia, com um cadáver lá fora, - o senhor aceita o meu convite?
Hesitou por um momento, mas, aceitou logo em seguida. “- Sim, eu aceito, vamos lá”.
Bem, então, deixe-me pegar alguns instrumentos de que preciso e já volto. Fui ao quarto. Peguei uma pá, martelos, pregos, correntes, um cadeado, um pé-de-cabra, cordas e mais uma garrafa de rum, e voltei à sala.
Enchi as duas canecas, peguei meus instrumentos de trabalho, a lamparina, passei a garrafa de rum para o Cornélio e segui à frente rumo ao cemitério.
Olhe, - logo ali tem a sepultura de uma mulher que foi enterrada como indigente há pouco tempo, vamos até lá?! Disse eu.
Ao chegarmos ao local, - eu disse:
- Sente-se aqui enquanto eu cavo. E Cornélio sentou ao lado do túmulo, tragando o rum no gargalo da garrafa.
Eu, por fim, depositei a lamparina ao lado da cova e comecei a cavar. A terra estava fofa e creio que levei, aproximadamente, uns vinte minutos até o buraco ficar um pouco acima da minha testa.
“Ei amigo Cornélio!?” – gritei!
Pode pular aqui e me ajudar a tirar o caixão da cova, por favor?
Levantou-se cambaleando e entrou na cova. Seguramos o caixão de ponta a ponta pelas alças e suspendemo-lo até a beira do túmulo.
Saímos de dentro da cova e imediatamente peguei o pé-de-cabra e arrebentei as travas do caixão. Ao retirar a tampa, tiramos o corpo de dentro e o odor era insuportável.
O cadáver encontrava-se em longo estado de decomposição, apresentava bolhas de pus em algumas partes do corpo, e também, parte da carne podre grudava na mortalha. O corpo também estava murcho e ressecado, o que não me deixou dúvidas de que tinha um lugar de sobra para mais um ocupante no caixão.
E não me enganei nos meus cálculos: - Cornélio era um homem pequeno, franzino e com certeza, caberia lá dentro com um pouquinho de esforço.
Senti um profundo enjôo e vontade de vomitar, ao passo que Cornélio olhava o cadáver com desejo e fascinação.
Você primeiro amigo Cornélio, enquanto eu descanso um pouco, - depois eu vou.
Cornélio passou-me a garrafa de rum e aproximou-se do cadáver. Despiu-a da cintura para baixo, escancarou as pernas dela, abriu o zíper de sua calça, deitou-se por cima da carne podre e penetrou-a.
Quando ele já estava no coito com o cadáver, - eu disse:
- Senhor Cornélio, eu sou um pouco tímido e reservado, vou cobrir o caixão com a tampa para o senhor ficar mais à vontade (no intuito de dispersar a atenção dele).
Ah, pouco deu atenção ao que eu falei, estava bêbado e excitado demais para perceber o terror e o perigo que encontrava-se à sua volta. “O homem é o único ser vivo que sabe que vai morrer, mas, é lamentável, que não sintamos quando a morte está bem próxima de nós”.
Enquanto ele gozava dos prazeres de sua necrofilia, apanhei o pé-de-cabra, segurando-o, fixamente, com ambas as mãos.
Aproximei-me dele, sorrateiramente e, desferi-lhe um golpe certeiro na nuca, que abriu acompanhado por um estalo!
Emitiu alguns gemidos: - Hâ... Hâ...Hâ..., e calou-se. Não sabia se o matara.
Com toda a calma possível, coloquei o cadáver de volta no caixão, depositei Cornélio por cima deste, peguei a tampa, cobri o caixão e fiquei sentado em cima, bebendo o restante do rum.
Apanhei o martelo e os pregos e, comecei a pregar a tampa do caixão. Certifiquei-me de que a tampa estava bem pregada, quando ouvi um gemido abafado vindo de dentro do caixão, mas não era um gemido de orgasmo ou de prazer. Era um gemido de terror misturado com angústia, por um momento, um calafrio percorreu-me todo o corpo.
Cheguei a sentir um desconforto ou remorso, mas não passou de um sentimento efêmero, pois, logo em seguida, meu espírito permaneceu sereno com a alma de um recém-nascido.
Eram quase duas horas da madrugada, eu estava cansado, mas precisava terminar a minha tarefa. Envolvi a corrente em volta do caixão e passei o cadeado, pois queria ter certeza de quê, se ele estivesse vivo não poderia sair dali jamais.
Enrolei a corda ao meio do caixão, quando ouvi outro grito abafado emitido lá de dentro:
- Socorro... Tire-me daqui... – Eu lhe imploro!
Com um grande esforço fui descarregando a corda amarrada ao caixão até o fundo da cova. Peguei a pá e comecei a jogar terra no buraco, quando outra vez, ouvi os gritos abafados de dentro do buraco, mas agora iam ficando mais distantes.
Quando joguei a última pá com terra no túmulo, fiquei plenamente satisfeito. Um denso nevoeiro cobria o cemitério e caía uma garoa fina e gélida. Tomei o último gole de rum, joguei uma coroa de rosas no túmulo, peguei meus instrumentos de trabalho, a lamparina e fui para casa dormir tranqüilamente.
E até hoje, sessenta anos depois, eu me encontro aqui, num abrigo para idosos, já no fim da vida e com este segredo guardado a sete palmos de terra.
Ora, para quê procurar a polícia, se eu podia punir o miserável à minha própria maneira!
Não concordam?...
Fim
O fantasma da foice
O fantasma da foice
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca
Wesley Houffman, segundo os boatos dos vizinhos, desde sua infância sempre foi um sujeito excêntrico, doentio e obscuro. Na escola ele não tinha amigos, andava sempre sozinho e nunca teve namorada. Era um verdadeiro misantropo.
Ele tinha uma personalidade perturbadora, as poucas pessoas que tentavam aproximar-se dele se afastavam com medo. Diziam que ele era louco, que ouvia vozes do além e que Satanás conversava com ele.
Houffman falava que nas suas supostas conversas com o diabo, este dizia que ele era um anjo enviado para ceifar a humanidade da terra para o reinado de Lúcifer. (Desta forma quem não iria ter medo de se aproximar de uma pessoa dessas!).
Seus pais, Rebeca e Wilson Houffman tiveram um espanto no dia que descobriram que o garoto aprisionava, torturava e matava gatos e insetos no quintal de casa dizendo que estava cumprindo as ordens do Diabo. O local funcionava como uma espécie de holocausto onde as vítimas sucumbiam nas garras de Houffman.
Rebeca e Wilson tinham dois filhos: Wesley, o mais velho, e Nicole, a caçula recém nascida. Eles achavam que a solidão e o isolamento do garoto era uma simples timidez, mas depois desta descoberta procuraram ajuda psiquiátrica para o menino.
Misteriosamente não foi constatado nos exames psiquiátricos nenhuma anormalidade ou distúrbio mental em Houffman, ou seja, se ele praticava aquelas barbaridades era porque sua índole já era voltada para o mal. A solução do problema não era procurar ajuda de um psiquiatra e sim de um padre exorcista – pensavam.
Os psiquiatras sugeriram aos pais de Houffman, que o menino fosse internado para sempre numa clínica para psicopatas de alta periculosidade para o bem de todos e para o próprio bem dele. Mas é claro que não o fizeram, para que internar alguém que não é louco numa clínica para loucos?
Os anos se passaram e Wesley Houffman se transformou num verdadeiro homenzarrão com um excelente porte físico: tinha um metro e noventa e cinco de altura e pesava noventa e oito quilos, e é claro que sua personalidade doentia e tenebrosa acompanhou seu crescimento. A loucura e a maldade Wesley Houffman não eram coisas deste mundo.
Eu nunca na minha vida ouvi falar ou sabia da existência desse sujeito, mas no final desta história o leitor saberá como “infelizmente” eu cruzei o seu caminho.
Segundo os boatos, a idéia de que o diabo falava com Houffman enraizou no seu cérebro – ele estava convicto que precisava ceifar a humanidade da terra para o reinado do seu senhor. E começou a cumprir sua missão executando a própria família!
Então, na calada da noite, numa hora erma e morta, enquanto todos dormiam – Wesley Houffman despertou transtornado com uma voz em seus ouvidos dizendo: “ceifar a humanidade! Ceifar a humanidade!”.
Levantou-se da cama e saiu do quarto, cautelosamente, para não despertar a sua família e foi em direção ao porão. Lá, apanhou uma foice, e completamente fora de si, caminhou até o quarto de sua irmã Nicole, acendeu a luz, aproximou-se, lentamente do leito, chamou baixinho pelo nome dela, e quando a infeliz despertou – ele disse:
-Perdoe-me querida irmã, só estou cumprindo a vontade do meu senhor!
Quando Nicole Houffman se deu conta do terror que estava ao seu redor e tentou dar aquele grito pavoroso, entrecortado e estridente de vítima quando se vê acuada pelo assassino já era tarde demais! A lâmina da foice levantou-se bem alto e desceu de uma vez em direção a sua cabeça como se fosse uma guilhotina! E os lençóis da cama e as paredes do quarto brancos como marfim ficaram salpicados pelo sangue purpúreo de Nicole que jorrava da cabeça dela.
Em seguida Wesley Houffman deixou a seguinte mensagem na parede branca grifada com o sangue da irmã: “Ceifar a humanidade da terra para o reinado de Satanás”.
Na seqüência foi ao quarto de Rebeca e Wilson e repetiu o mesmo ritual. Acendeu a luz, aproximou-se, lentamente do leito, com a foice em punhos, chamou baixinho os nomes deles:- pai, mãe, – e no momento em que eles despertaram foram atacados inúmeras vezes com golpes de foice e uma sucessão de gritos horríveis suplicando ajuda ressonou pela mansão!
Em questão de segundos os lençóis da cama do casal estavam banhados de sangue e as vítimas estraçalhadas.
E, novamente, ele grifou uma frase na parede com o sangue deles dizendo: “eu cumpri a vontade do meu senhor!”.
Depois – Wesley Houffman dirigiu-se ao sótão e lá fez um ritual macabro! Utilizou a foice para cortar a garganta e os pulsos, ofereceu sua vida para o diabo, e pediu a este que as almas de seus familiares e a dele perpetuassem na mansão para servirem ao seu senhor. E resvalou-se em sangue até expirar!
Os dias passaram e os vizinhos estranharam a ausência da família Houffman e o silêncio na mansão, desde a noite em que foram ouvidos aqueles gritos horríveis – ninguém mais na casa deu sinal de vida – despertara-se as suspeitas de um crime. Então acionaram a polícia e invadiram a casa.
Naturalmente, os policiais não tiveram dificuldades para encontrarem os corpos das vítimas, pois aos que já tiveram a desagradável experiência de ver de perto um cadáver humano em decomposição, - não preciso me dar ao trabalho de descrever o insuportável odor que se exala. E, é claro que o fedor de miasma impregnava toda a casa, mas com certeza, o que enregelou o sangue dos policiais e dos vizinhos não foi o mau cheiro dos corpos, e sim o estado em que os corpos foram encontrados, “assassinados a golpes de foice!”. Isto sem falar das tenebrosas gravuras nas paredes brancas feitas com sangue das vítimas!
A autópsia e a perícia criminal constataram que Wesley Houffman se matou depois de ter estraçalhado a sua família a golpes de foice. É claro que aludiram o terrível crime ao comportamento doentio de Wesley Houffman. Como era de se supor especulou-se uma espécie de lenda ou maldição que Wesley Houffman teria matado a família e depois se matado cumprindo as supostas ordens que Satanás teria lhe dado.
A mansão foi lacrada, desde a descoberta dos crimes, e ninguém mais se atreveu a passar perto, tampouco, entrar na casa, - os móveis ficaram intactos no local, a residência foi abandonada, e é claro – o local foi dado como mal assombrado.
O leitor, com certeza, deve ter imaginado o terror – a força do impacto que esta tragédia causou à vizinhança, ao saberem que alguém foi capaz de exterminar a própria família e escrever frases tão horríveis como aquelas com o sangue dos próprios familiares, e em seguida dar cabo a própria vida dizendo ter cumprido a vontade do Diabo!
Éramos quatro aquela noite, - eu comandava os saqueadores. Há muito tempo eu espreitava aquele bairro, e aquela mansão despertou-me o interesse. Era uma bela mansão num bairro nobre, tranqüilo e de pouco movimento.
Eu tinha certeza que lucraríamos muito com os possíveis objetos de valores que encontraríamos lá.
Era quase meia-noite e nós estávamos no quintal da casa, não havia cães de guarda e nem seguranças, - acreditamos que os donos tinham viajado e não tinha ninguém em casa.
Em nossas missões eu não permitia o uso de violência, nossas armas eram usadas por precaução e em última instância, pois nosso propósito era fazer o furto sem ferir ninguém e fugir sem deixar rastros.
Eu distribuí as ferramentas e equipamentos que utilizaríamos na operação – dei as armas aos meus homens com ordens expressas para serem utilizadas em último caso.
Arrombamos a porta principal e invadimos a casa, - dei ordens para que Kevin, Harry e Brandon vasculhassem cada canto da mansão e que pegassem tudo que encontrassem de valor o mais rápido possível, e assim foi feito. Os meus comparsas se espalharam pelos cômodos grandes da casa e desapareceram em meio à escuridão, guiados apenas pelos lumes das lanternas.
Quando me encontrei sozinho na sala tive a atenção despertada por um barulho de passos que ressonavam no meio da escuridão da sala. Acendi a lanterna e iluminei o local.
Então pude ver uma criança correndo em direção ao longo corredor da casa, e segui-a até chegar a uma porta que acreditei ser à entrada do porão da casa. Entrei, desci as escadas, iluminei e vasculhei cada canto do porão e não vi a criança, e tampouco, nenhum objeto de valor.
Quando já subia as escadas ouvi uma voz entrecortada e abafada de criança que me arrepiou os pêlos do corpo! Virei em direção àquela voz, lancei um flash de luz e vi a pequena criança em minha frente, aparentava ter uns doze anos de idade – eu pensei.
Perguntei seu nome e ela me respondeu:
- Meu nome é Nicole, pegue os seus amigos e fuja daqui, - o Wesley é muito mal, ele vai matá-los, assim como fez com o papai, a mamãe e comigo!
Quem é Wesley minha querida? Perguntei à menina.
- Ele é o meu irmão mais velho, - ele matou a mim e aos meus pais e depois se matou, os nossos corpos estão enterrados, mas nossos espíritos perpetuam aqui, este foi o acordo de Wesley com Satanás, - disse a menina – para o meu espanto.
Mesmo assustado com a história e o estranho aparecimento daquela pequena criatura, tentei aproximar-me da menina estendendo-lhe a mão com doçura. Mas ao me aproximar da estranha pequena fui tomado por extremo horror:
Nicole começou a se resvalar em sangue coagulado e a expurgar pus pela boca, olhos e nariz, e também notei um ferimento horrível em sua cabeça causado por algum instrumento cortante! E mais uma vez a criatura falou:
- Pegue os seus amigos e fuja! Fuja!...
E começou a se derreter em sangue e pus, e em pouco tempo sumiu das minhas vistas como se tivesse sido engolida pelo chão.
Fiquei aturdido com tal aparição e senti vontade de desaparecer daquele local, mas hesitei, levei em consideração o fato de não conhecer a casa e ter imaginado bobagens, ora, quem nunca teve a sensação de não estar sozinho quando se está sozinho num local desconhecido?
Subi as escadas para procurar meus comparsas, mas enquanto subia tive a impressão de ouvir passos atrás de mim, de estar sendo seguido, - olhei para trás e não vi ninguém.
Continuei subindo as escadas e ainda ouvia os passos, não olhei para trás, saí do porão e fechei a porta. Quando já me distanciava ouvi uma risada demoníaca provinda detrás da porta!
Saquei o revólver e me aproximei da porta. Quando toquei na maçaneta a porta se abriu bruscamente e fui lançado ao chão. Lancei um flash de luz em direção à porta e diante de mim, ereto, vi a imagem de um homem armado com uma foice que me aterrorizou!
O homem tinha um aspecto horrível, cadavérico, media mais ou menos dois metros - eu acho, havia ferimentos em torno do pescoço, e de seu olhar emanava a mais pura maldade!
O sujeito veio para cima de mim determinado a me matar, - lançou um golpe de foice que por sorte consegui me desviar, e me afastei do indivíduo. Disparei três tiros no miserável, mas parecia que não surtira efeito na vítima.
Então o sujeito desferiu outra foiçada, mas eu me esquivei e o golpe atingiu a porta e prendeu a lâmina da foice. Mas o elemento continuava a me atacar, e eu tentava reagir de todas as formas:
Batia e socava-o com socos e pontapés, mas parecia que ele não sentia dor. Então saquei uma faca e golpeei sua barriga, enterrando, com força, toda a lâmina até o cabo, porém não obtive resultado. O homem me olhava com deboche e não falava nada, parecia que a única coisa que lhe interessava mesmo era me matar.
Tentei golpeá-lo, novamente, no rosto, mas ele deteve o golpe com a mão, destroncou o meu pulso, me deu uma forte cabeçada, me suspendeu com os braços ao alto e me arremessou violentamente contra a parede. Sem dúvida um homem normal não possuía uma força sobrenatural daquela, ou melhor, o que era que me tinha atacado? – Pensei comigo.
Eu caí completamente ferido, tonto e desorientado. Embora estivesse escuro percebi que o homem não se encontrava mais ali, não ouvi mais nenhum barulho e nem sentia sua presença.
Peguei a lanterna, iluminei o local e não vi sinal do desgraçado, porém a marca da foice estava na porta, um sinal de que eu não sonhei e realmente havia sido atacado por aquele estranho sujeito.
Nesse momento, vários pensamentos passaram em minha mente, o que seria tudo aquilo, que mistérios envolviam aquela estranha mansão? E aquela imagem da pequena Nicole que eu vira? Seria este homem que me atacara, o irmão dela, - o tal Wesley Houffman? Ou melhor, o fantasma dele!?
Enfim, fiquei tomado não só pelo terror como também por sentimentos de dúvidas e inseguranças, aquilo não era um sonho ou uma alucinação. Será que Brandon, Kevin e Harry estão bem? “Perguntei a mim mesmo”.
Caminhei poucas passadas, iluminando o caminho com a lanterna, ainda meio tonto com a violência do ataque sofrido. Então surgiram à minha frente duas imagens espectrais horríveis, putrefatas de um homem e de uma mulher.
Havia ferimentos e manchas de sangue nos corpos dos dois. Nesse instante, encarei-os paralisado pelo terror em meu corpo, sem mencionar uma única palavra.
Foi então que os espectros se apresentaram como Rebeca e Wilson Houffman, os pais de Nicole e Wesley Houffman. E, assim como Nicole – eles me contaram a mesma história e me fizeram à mesma advertência:
- Pegue os seus amigos e fuja daqui o mais rápido possível, ou o Wesley vai matá-los como fez conosco – você já viu do que ele é capaz e que nada e ninguém podem detê-lo – fuja! Fuja!
Quando me propus a dirigir-lhes uma única palavra ao casal Houffman tive a atenção despertada por um grito pavoroso vindo do andar de cima. E, quando novamente olhei em direção ao casal eles já tinham sumido, e eu continuava ouvindo os gritos:
-Socorro chefe, ajude-me, por favor!
Meu Deus é o Harry, - eu falei – correndo em direção à sala, chamando desesperadamente o seu nome: Harry! Harry! Harry!
Lá chegando ainda pude ver o pobre Harry sucumbindo na ponta da foice do maldito! Ele havia cortado a garganta do meu amigo e segurava-o pelos cabelos da nuca enquanto suspendia-o com a ponta da foice atravessada pelas costas até sair pela frente do estômago!
Largue-o seu miserável, - eu gritei.
E o sujeito lançou Harry escada abaixo aos meus pés, - de súbito um sentimento de vingança apoderou-se de mim, e num impulso frenético, saquei a faca, arremessei contra o sujeito e o atingi entre o peito, mas o miserável nada sentiu, deu as costas e saiu andando. O pobre Harry agonizava aos meus pés e ainda falou comigo:
-Fuja chefe! Fuja chefe! Aquele cara é horrível, - ele matou o Kevin e o Brandon com uma foice e gravou umas frases estranhas na parede com o sangue deles!
Nesse instante olhei para cima e o sujeito não estava lá, havia sumido. Então tentei reanimar o meu amigo sacudindo-o: Harry! Harry! Resista! E ele continuou a falar nos seus últimos suspiros:
- A garotinha!... A garotinha – a Nicole! Ela apareceu diante de nós e nos contou toda a história, - ela disse que seu irmão se matou depois de ter assassinado toda a família cumprindo as ordens de Satanás!
- Mas que as almas deles permaneciam nesta casa, - eles estão mortos, são espíritos penitentes. Nós atiramos nele e ele não sentiu nada, - ele os matou! Ele os matou!
- A menina mandou nós fugirmos! Vamos fuja! Fuja! E calou-se com os olhos arregalados.
Harry!... Harry!...- Gritei seu nome em vão sem obter resposta.
Miserável! Exclamei. Tudo que o Harry falou era verdade, - eu vi a menina, o sujeito me atacou, os fantasmas dos pais deles apareceram diante de mim e o Harry estava morto à minha frente!
Peguei a pistola do cadáver de Harry, mas estava descarregada, então apanhei sua faca e subi as escadas iluminando com a lanterna.
Confesso que subi até os quartos à procura de Kevin e Brandon com medo de minha própria sombra, mas queria ter certeza de que eles estavam mortos como Harry, e se possível vingar as suas mortes.
Pelo corredor percebi a porta de um único dormitório entreaberta e entrei. Acendi a luz e fiquei imóvel de terror!
Os corpos de Kevin e Brandon haviam sido estraçalhados com a foice, e ao que pareceu eles não morreram sem lutar. E o que mais me chocou foi quando me aproximei da parede do quarto branca, e vi grifada com o sangue de meus companheiros as seguintes frases:
“Eu sou o anjo enviado para ceifar a humanidade da terra para o reinado de Lúcifer”.
“Eu cumpri a vontade do meu senhor”.
“Esta é a maldição que atormenta a família Houffman”.
Quando li aquelas frases foi impossível controlar o meu temor, nunca na vida tinha experimentado tamanha sensação. Comecei a girar em torno de mim mesmo como num instinto de defesa.
De súbito, aparece em minha frente a imagem da pequena Nicole, dizendo:
-Acredita em mim agora, os seus amigos estão mortos, e se o senhor não sair daqui, o Wesley virá pega-lo,- vamos, não é tarde – ele está no porão ouvindo as novas instruções de seu mentor.
-Fuja!Fuja! Insistiu a garotinha.
Nessa altura, eu já nem sabia direito o que estava fazendo, a única coisa que me interessava naquele momento era salvar a minha vida.
Procurei por Nicole por mais um instante e não a vi, ela simplesmente sumira outra vez.
Debandei apavorado do quarto em que estava deixando para trás meus companheiros mortos, e a cada canto percorrido em direção à saída daquela maldita casa parecia se tornar cada vez mais longe. Quando já descia a escada em direção à sala, ouvi a mesma gargalhada demoníaca que escutara no porão assim que entramos na casa.
Eu podia ver a saída, - a porta aberta para a minha liberdade, mas tropecei no carpete da sala. Então, comecei a ouvir atrás de mim umas risadas sussurrantes e pisadas se aproximando!
Apavorado, - levantei-me e continuei a correr em direção a porta. Faltava pouco para escapar, de repente, a porta se fechou, e eu não consegui abri-la, estava preso.
E continuei ouvindo os passos e a gargalhada sussurrante, porém não distinguia de que lados vinham. Foi quando o meu terror falou mais alto, e eu corri em direção a janela e me atirei sem pensar para fora da casa, estilhaçando o vidro da janela.
Cruzei o quintal correndo como uma lebre fugindo do lobo, e quando já estava em cima do muro olhei para a casa e vi o terrível Wesley Houffman com sua foice em punhos e o rosto desfigurado zombando do meu terror.
Naquela madrugada fugi de lá como se fugisse de alguma praga, nem sei como consegui chegar ao nosso esconderijo, me tranquei apavorado, assustando-me até com o barulho do vento. O que era aquilo meu Deus?... O que era aquilo meu Deus?... Perguntava comigo tentando encontrar alguma lógica pelos fatos.
Passados alguns dias deste acontecido ouvi rumores na cidade de que três corpos não identificados de possíveis saqueadores foram encontrados estraçalhados na mansão Houffman, novamente, no meio da madrugada ouviram-se gritos dentro da casa e a suspeita de outro crime despertara-se no local e, outra vez, acionaram a polícia para uma investigação. E da mesma forma que Wesley Houffman matou a sua família e depois se matou, deixou as paredes do quarto grifadas com as mesmas frases feitas com o sangue das vítimas. A dúvida da polícia e o mistério a ser investigado era descobrir o assassino, pois, embora o crime tenha sido da mesma natureza não poderia ter sido cometido por Wesley Houffman , já que ele estava morto. Embora alguns vizinhos tenham afirmado terem visto um vulto com uma foice em punhos andando através da janela da mansão, ou de estarem sendo observados pelos espíritos de uma criança e de um casal que aludiram serem Nicole, Rebeca e Wilson Houffman.
Foi então que eu descobri que naquela noite nós cometemos a tolice de tentarmos saquear a casa de ninguém mais que Wesley Houffman ,- e eu tive a sorte de escapar com vida de lá, e mesmo com medo poder contar esta assustadora e doentia história para vós.
A mansão continua lá abandonada, mas por nada deste mundo eu volto a colocar os meus pés naquele local, - pode ser que da próxima vez eu não tenha a mesma sorte, e quem sabe se o espírito da pequena Nicole não foi o meu anjo da guarda que me salvou.
Deus tenha misericórdia da minha pobre alma!
Fim
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca
Wesley Houffman, segundo os boatos dos vizinhos, desde sua infância sempre foi um sujeito excêntrico, doentio e obscuro. Na escola ele não tinha amigos, andava sempre sozinho e nunca teve namorada. Era um verdadeiro misantropo.
Ele tinha uma personalidade perturbadora, as poucas pessoas que tentavam aproximar-se dele se afastavam com medo. Diziam que ele era louco, que ouvia vozes do além e que Satanás conversava com ele.
Houffman falava que nas suas supostas conversas com o diabo, este dizia que ele era um anjo enviado para ceifar a humanidade da terra para o reinado de Lúcifer. (Desta forma quem não iria ter medo de se aproximar de uma pessoa dessas!).
Seus pais, Rebeca e Wilson Houffman tiveram um espanto no dia que descobriram que o garoto aprisionava, torturava e matava gatos e insetos no quintal de casa dizendo que estava cumprindo as ordens do Diabo. O local funcionava como uma espécie de holocausto onde as vítimas sucumbiam nas garras de Houffman.
Rebeca e Wilson tinham dois filhos: Wesley, o mais velho, e Nicole, a caçula recém nascida. Eles achavam que a solidão e o isolamento do garoto era uma simples timidez, mas depois desta descoberta procuraram ajuda psiquiátrica para o menino.
Misteriosamente não foi constatado nos exames psiquiátricos nenhuma anormalidade ou distúrbio mental em Houffman, ou seja, se ele praticava aquelas barbaridades era porque sua índole já era voltada para o mal. A solução do problema não era procurar ajuda de um psiquiatra e sim de um padre exorcista – pensavam.
Os psiquiatras sugeriram aos pais de Houffman, que o menino fosse internado para sempre numa clínica para psicopatas de alta periculosidade para o bem de todos e para o próprio bem dele. Mas é claro que não o fizeram, para que internar alguém que não é louco numa clínica para loucos?
Os anos se passaram e Wesley Houffman se transformou num verdadeiro homenzarrão com um excelente porte físico: tinha um metro e noventa e cinco de altura e pesava noventa e oito quilos, e é claro que sua personalidade doentia e tenebrosa acompanhou seu crescimento. A loucura e a maldade Wesley Houffman não eram coisas deste mundo.
Eu nunca na minha vida ouvi falar ou sabia da existência desse sujeito, mas no final desta história o leitor saberá como “infelizmente” eu cruzei o seu caminho.
Segundo os boatos, a idéia de que o diabo falava com Houffman enraizou no seu cérebro – ele estava convicto que precisava ceifar a humanidade da terra para o reinado do seu senhor. E começou a cumprir sua missão executando a própria família!
Então, na calada da noite, numa hora erma e morta, enquanto todos dormiam – Wesley Houffman despertou transtornado com uma voz em seus ouvidos dizendo: “ceifar a humanidade! Ceifar a humanidade!”.
Levantou-se da cama e saiu do quarto, cautelosamente, para não despertar a sua família e foi em direção ao porão. Lá, apanhou uma foice, e completamente fora de si, caminhou até o quarto de sua irmã Nicole, acendeu a luz, aproximou-se, lentamente do leito, chamou baixinho pelo nome dela, e quando a infeliz despertou – ele disse:
-Perdoe-me querida irmã, só estou cumprindo a vontade do meu senhor!
Quando Nicole Houffman se deu conta do terror que estava ao seu redor e tentou dar aquele grito pavoroso, entrecortado e estridente de vítima quando se vê acuada pelo assassino já era tarde demais! A lâmina da foice levantou-se bem alto e desceu de uma vez em direção a sua cabeça como se fosse uma guilhotina! E os lençóis da cama e as paredes do quarto brancos como marfim ficaram salpicados pelo sangue purpúreo de Nicole que jorrava da cabeça dela.
Em seguida Wesley Houffman deixou a seguinte mensagem na parede branca grifada com o sangue da irmã: “Ceifar a humanidade da terra para o reinado de Satanás”.
Na seqüência foi ao quarto de Rebeca e Wilson e repetiu o mesmo ritual. Acendeu a luz, aproximou-se, lentamente do leito, com a foice em punhos, chamou baixinho os nomes deles:- pai, mãe, – e no momento em que eles despertaram foram atacados inúmeras vezes com golpes de foice e uma sucessão de gritos horríveis suplicando ajuda ressonou pela mansão!
Em questão de segundos os lençóis da cama do casal estavam banhados de sangue e as vítimas estraçalhadas.
E, novamente, ele grifou uma frase na parede com o sangue deles dizendo: “eu cumpri a vontade do meu senhor!”.
Depois – Wesley Houffman dirigiu-se ao sótão e lá fez um ritual macabro! Utilizou a foice para cortar a garganta e os pulsos, ofereceu sua vida para o diabo, e pediu a este que as almas de seus familiares e a dele perpetuassem na mansão para servirem ao seu senhor. E resvalou-se em sangue até expirar!
Os dias passaram e os vizinhos estranharam a ausência da família Houffman e o silêncio na mansão, desde a noite em que foram ouvidos aqueles gritos horríveis – ninguém mais na casa deu sinal de vida – despertara-se as suspeitas de um crime. Então acionaram a polícia e invadiram a casa.
Naturalmente, os policiais não tiveram dificuldades para encontrarem os corpos das vítimas, pois aos que já tiveram a desagradável experiência de ver de perto um cadáver humano em decomposição, - não preciso me dar ao trabalho de descrever o insuportável odor que se exala. E, é claro que o fedor de miasma impregnava toda a casa, mas com certeza, o que enregelou o sangue dos policiais e dos vizinhos não foi o mau cheiro dos corpos, e sim o estado em que os corpos foram encontrados, “assassinados a golpes de foice!”. Isto sem falar das tenebrosas gravuras nas paredes brancas feitas com sangue das vítimas!
A autópsia e a perícia criminal constataram que Wesley Houffman se matou depois de ter estraçalhado a sua família a golpes de foice. É claro que aludiram o terrível crime ao comportamento doentio de Wesley Houffman. Como era de se supor especulou-se uma espécie de lenda ou maldição que Wesley Houffman teria matado a família e depois se matado cumprindo as supostas ordens que Satanás teria lhe dado.
A mansão foi lacrada, desde a descoberta dos crimes, e ninguém mais se atreveu a passar perto, tampouco, entrar na casa, - os móveis ficaram intactos no local, a residência foi abandonada, e é claro – o local foi dado como mal assombrado.
O leitor, com certeza, deve ter imaginado o terror – a força do impacto que esta tragédia causou à vizinhança, ao saberem que alguém foi capaz de exterminar a própria família e escrever frases tão horríveis como aquelas com o sangue dos próprios familiares, e em seguida dar cabo a própria vida dizendo ter cumprido a vontade do Diabo!
Éramos quatro aquela noite, - eu comandava os saqueadores. Há muito tempo eu espreitava aquele bairro, e aquela mansão despertou-me o interesse. Era uma bela mansão num bairro nobre, tranqüilo e de pouco movimento.
Eu tinha certeza que lucraríamos muito com os possíveis objetos de valores que encontraríamos lá.
Era quase meia-noite e nós estávamos no quintal da casa, não havia cães de guarda e nem seguranças, - acreditamos que os donos tinham viajado e não tinha ninguém em casa.
Em nossas missões eu não permitia o uso de violência, nossas armas eram usadas por precaução e em última instância, pois nosso propósito era fazer o furto sem ferir ninguém e fugir sem deixar rastros.
Eu distribuí as ferramentas e equipamentos que utilizaríamos na operação – dei as armas aos meus homens com ordens expressas para serem utilizadas em último caso.
Arrombamos a porta principal e invadimos a casa, - dei ordens para que Kevin, Harry e Brandon vasculhassem cada canto da mansão e que pegassem tudo que encontrassem de valor o mais rápido possível, e assim foi feito. Os meus comparsas se espalharam pelos cômodos grandes da casa e desapareceram em meio à escuridão, guiados apenas pelos lumes das lanternas.
Quando me encontrei sozinho na sala tive a atenção despertada por um barulho de passos que ressonavam no meio da escuridão da sala. Acendi a lanterna e iluminei o local.
Então pude ver uma criança correndo em direção ao longo corredor da casa, e segui-a até chegar a uma porta que acreditei ser à entrada do porão da casa. Entrei, desci as escadas, iluminei e vasculhei cada canto do porão e não vi a criança, e tampouco, nenhum objeto de valor.
Quando já subia as escadas ouvi uma voz entrecortada e abafada de criança que me arrepiou os pêlos do corpo! Virei em direção àquela voz, lancei um flash de luz e vi a pequena criança em minha frente, aparentava ter uns doze anos de idade – eu pensei.
Perguntei seu nome e ela me respondeu:
- Meu nome é Nicole, pegue os seus amigos e fuja daqui, - o Wesley é muito mal, ele vai matá-los, assim como fez com o papai, a mamãe e comigo!
Quem é Wesley minha querida? Perguntei à menina.
- Ele é o meu irmão mais velho, - ele matou a mim e aos meus pais e depois se matou, os nossos corpos estão enterrados, mas nossos espíritos perpetuam aqui, este foi o acordo de Wesley com Satanás, - disse a menina – para o meu espanto.
Mesmo assustado com a história e o estranho aparecimento daquela pequena criatura, tentei aproximar-me da menina estendendo-lhe a mão com doçura. Mas ao me aproximar da estranha pequena fui tomado por extremo horror:
Nicole começou a se resvalar em sangue coagulado e a expurgar pus pela boca, olhos e nariz, e também notei um ferimento horrível em sua cabeça causado por algum instrumento cortante! E mais uma vez a criatura falou:
- Pegue os seus amigos e fuja! Fuja!...
E começou a se derreter em sangue e pus, e em pouco tempo sumiu das minhas vistas como se tivesse sido engolida pelo chão.
Fiquei aturdido com tal aparição e senti vontade de desaparecer daquele local, mas hesitei, levei em consideração o fato de não conhecer a casa e ter imaginado bobagens, ora, quem nunca teve a sensação de não estar sozinho quando se está sozinho num local desconhecido?
Subi as escadas para procurar meus comparsas, mas enquanto subia tive a impressão de ouvir passos atrás de mim, de estar sendo seguido, - olhei para trás e não vi ninguém.
Continuei subindo as escadas e ainda ouvia os passos, não olhei para trás, saí do porão e fechei a porta. Quando já me distanciava ouvi uma risada demoníaca provinda detrás da porta!
Saquei o revólver e me aproximei da porta. Quando toquei na maçaneta a porta se abriu bruscamente e fui lançado ao chão. Lancei um flash de luz em direção à porta e diante de mim, ereto, vi a imagem de um homem armado com uma foice que me aterrorizou!
O homem tinha um aspecto horrível, cadavérico, media mais ou menos dois metros - eu acho, havia ferimentos em torno do pescoço, e de seu olhar emanava a mais pura maldade!
O sujeito veio para cima de mim determinado a me matar, - lançou um golpe de foice que por sorte consegui me desviar, e me afastei do indivíduo. Disparei três tiros no miserável, mas parecia que não surtira efeito na vítima.
Então o sujeito desferiu outra foiçada, mas eu me esquivei e o golpe atingiu a porta e prendeu a lâmina da foice. Mas o elemento continuava a me atacar, e eu tentava reagir de todas as formas:
Batia e socava-o com socos e pontapés, mas parecia que ele não sentia dor. Então saquei uma faca e golpeei sua barriga, enterrando, com força, toda a lâmina até o cabo, porém não obtive resultado. O homem me olhava com deboche e não falava nada, parecia que a única coisa que lhe interessava mesmo era me matar.
Tentei golpeá-lo, novamente, no rosto, mas ele deteve o golpe com a mão, destroncou o meu pulso, me deu uma forte cabeçada, me suspendeu com os braços ao alto e me arremessou violentamente contra a parede. Sem dúvida um homem normal não possuía uma força sobrenatural daquela, ou melhor, o que era que me tinha atacado? – Pensei comigo.
Eu caí completamente ferido, tonto e desorientado. Embora estivesse escuro percebi que o homem não se encontrava mais ali, não ouvi mais nenhum barulho e nem sentia sua presença.
Peguei a lanterna, iluminei o local e não vi sinal do desgraçado, porém a marca da foice estava na porta, um sinal de que eu não sonhei e realmente havia sido atacado por aquele estranho sujeito.
Nesse momento, vários pensamentos passaram em minha mente, o que seria tudo aquilo, que mistérios envolviam aquela estranha mansão? E aquela imagem da pequena Nicole que eu vira? Seria este homem que me atacara, o irmão dela, - o tal Wesley Houffman? Ou melhor, o fantasma dele!?
Enfim, fiquei tomado não só pelo terror como também por sentimentos de dúvidas e inseguranças, aquilo não era um sonho ou uma alucinação. Será que Brandon, Kevin e Harry estão bem? “Perguntei a mim mesmo”.
Caminhei poucas passadas, iluminando o caminho com a lanterna, ainda meio tonto com a violência do ataque sofrido. Então surgiram à minha frente duas imagens espectrais horríveis, putrefatas de um homem e de uma mulher.
Havia ferimentos e manchas de sangue nos corpos dos dois. Nesse instante, encarei-os paralisado pelo terror em meu corpo, sem mencionar uma única palavra.
Foi então que os espectros se apresentaram como Rebeca e Wilson Houffman, os pais de Nicole e Wesley Houffman. E, assim como Nicole – eles me contaram a mesma história e me fizeram à mesma advertência:
- Pegue os seus amigos e fuja daqui o mais rápido possível, ou o Wesley vai matá-los como fez conosco – você já viu do que ele é capaz e que nada e ninguém podem detê-lo – fuja! Fuja!
Quando me propus a dirigir-lhes uma única palavra ao casal Houffman tive a atenção despertada por um grito pavoroso vindo do andar de cima. E, quando novamente olhei em direção ao casal eles já tinham sumido, e eu continuava ouvindo os gritos:
-Socorro chefe, ajude-me, por favor!
Meu Deus é o Harry, - eu falei – correndo em direção à sala, chamando desesperadamente o seu nome: Harry! Harry! Harry!
Lá chegando ainda pude ver o pobre Harry sucumbindo na ponta da foice do maldito! Ele havia cortado a garganta do meu amigo e segurava-o pelos cabelos da nuca enquanto suspendia-o com a ponta da foice atravessada pelas costas até sair pela frente do estômago!
Largue-o seu miserável, - eu gritei.
E o sujeito lançou Harry escada abaixo aos meus pés, - de súbito um sentimento de vingança apoderou-se de mim, e num impulso frenético, saquei a faca, arremessei contra o sujeito e o atingi entre o peito, mas o miserável nada sentiu, deu as costas e saiu andando. O pobre Harry agonizava aos meus pés e ainda falou comigo:
-Fuja chefe! Fuja chefe! Aquele cara é horrível, - ele matou o Kevin e o Brandon com uma foice e gravou umas frases estranhas na parede com o sangue deles!
Nesse instante olhei para cima e o sujeito não estava lá, havia sumido. Então tentei reanimar o meu amigo sacudindo-o: Harry! Harry! Resista! E ele continuou a falar nos seus últimos suspiros:
- A garotinha!... A garotinha – a Nicole! Ela apareceu diante de nós e nos contou toda a história, - ela disse que seu irmão se matou depois de ter assassinado toda a família cumprindo as ordens de Satanás!
- Mas que as almas deles permaneciam nesta casa, - eles estão mortos, são espíritos penitentes. Nós atiramos nele e ele não sentiu nada, - ele os matou! Ele os matou!
- A menina mandou nós fugirmos! Vamos fuja! Fuja! E calou-se com os olhos arregalados.
Harry!... Harry!...- Gritei seu nome em vão sem obter resposta.
Miserável! Exclamei. Tudo que o Harry falou era verdade, - eu vi a menina, o sujeito me atacou, os fantasmas dos pais deles apareceram diante de mim e o Harry estava morto à minha frente!
Peguei a pistola do cadáver de Harry, mas estava descarregada, então apanhei sua faca e subi as escadas iluminando com a lanterna.
Confesso que subi até os quartos à procura de Kevin e Brandon com medo de minha própria sombra, mas queria ter certeza de que eles estavam mortos como Harry, e se possível vingar as suas mortes.
Pelo corredor percebi a porta de um único dormitório entreaberta e entrei. Acendi a luz e fiquei imóvel de terror!
Os corpos de Kevin e Brandon haviam sido estraçalhados com a foice, e ao que pareceu eles não morreram sem lutar. E o que mais me chocou foi quando me aproximei da parede do quarto branca, e vi grifada com o sangue de meus companheiros as seguintes frases:
“Eu sou o anjo enviado para ceifar a humanidade da terra para o reinado de Lúcifer”.
“Eu cumpri a vontade do meu senhor”.
“Esta é a maldição que atormenta a família Houffman”.
Quando li aquelas frases foi impossível controlar o meu temor, nunca na vida tinha experimentado tamanha sensação. Comecei a girar em torno de mim mesmo como num instinto de defesa.
De súbito, aparece em minha frente a imagem da pequena Nicole, dizendo:
-Acredita em mim agora, os seus amigos estão mortos, e se o senhor não sair daqui, o Wesley virá pega-lo,- vamos, não é tarde – ele está no porão ouvindo as novas instruções de seu mentor.
-Fuja!Fuja! Insistiu a garotinha.
Nessa altura, eu já nem sabia direito o que estava fazendo, a única coisa que me interessava naquele momento era salvar a minha vida.
Procurei por Nicole por mais um instante e não a vi, ela simplesmente sumira outra vez.
Debandei apavorado do quarto em que estava deixando para trás meus companheiros mortos, e a cada canto percorrido em direção à saída daquela maldita casa parecia se tornar cada vez mais longe. Quando já descia a escada em direção à sala, ouvi a mesma gargalhada demoníaca que escutara no porão assim que entramos na casa.
Eu podia ver a saída, - a porta aberta para a minha liberdade, mas tropecei no carpete da sala. Então, comecei a ouvir atrás de mim umas risadas sussurrantes e pisadas se aproximando!
Apavorado, - levantei-me e continuei a correr em direção a porta. Faltava pouco para escapar, de repente, a porta se fechou, e eu não consegui abri-la, estava preso.
E continuei ouvindo os passos e a gargalhada sussurrante, porém não distinguia de que lados vinham. Foi quando o meu terror falou mais alto, e eu corri em direção a janela e me atirei sem pensar para fora da casa, estilhaçando o vidro da janela.
Cruzei o quintal correndo como uma lebre fugindo do lobo, e quando já estava em cima do muro olhei para a casa e vi o terrível Wesley Houffman com sua foice em punhos e o rosto desfigurado zombando do meu terror.
Naquela madrugada fugi de lá como se fugisse de alguma praga, nem sei como consegui chegar ao nosso esconderijo, me tranquei apavorado, assustando-me até com o barulho do vento. O que era aquilo meu Deus?... O que era aquilo meu Deus?... Perguntava comigo tentando encontrar alguma lógica pelos fatos.
Passados alguns dias deste acontecido ouvi rumores na cidade de que três corpos não identificados de possíveis saqueadores foram encontrados estraçalhados na mansão Houffman, novamente, no meio da madrugada ouviram-se gritos dentro da casa e a suspeita de outro crime despertara-se no local e, outra vez, acionaram a polícia para uma investigação. E da mesma forma que Wesley Houffman matou a sua família e depois se matou, deixou as paredes do quarto grifadas com as mesmas frases feitas com o sangue das vítimas. A dúvida da polícia e o mistério a ser investigado era descobrir o assassino, pois, embora o crime tenha sido da mesma natureza não poderia ter sido cometido por Wesley Houffman , já que ele estava morto. Embora alguns vizinhos tenham afirmado terem visto um vulto com uma foice em punhos andando através da janela da mansão, ou de estarem sendo observados pelos espíritos de uma criança e de um casal que aludiram serem Nicole, Rebeca e Wilson Houffman.
Foi então que eu descobri que naquela noite nós cometemos a tolice de tentarmos saquear a casa de ninguém mais que Wesley Houffman ,- e eu tive a sorte de escapar com vida de lá, e mesmo com medo poder contar esta assustadora e doentia história para vós.
A mansão continua lá abandonada, mas por nada deste mundo eu volto a colocar os meus pés naquele local, - pode ser que da próxima vez eu não tenha a mesma sorte, e quem sabe se o espírito da pequena Nicole não foi o meu anjo da guarda que me salvou.
Deus tenha misericórdia da minha pobre alma!
Fim
O abutre
O abutre
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
O verão passado tinha sido um dos mais rigorosos dos últimos tempos. A estiagem castigava a mata, que já estava parecendo mais com um deserto do que uma floresta.
A vegetação estava seca pelo calor excessivo, e muitos lagos e rios secaram também. Faltava água e comida para muitos animais e, muitas espécies não resistiram e sucumbiram.
A princípio, isto foi vantagem para mim e outros companheiros de minha espécie, pois como carniceiros alimentavámo-nos dos inúmeros cadáveres de animais silvestres que se encontravam a farta pela mata. É o chamado equilíbrio da natureza, pois se não comêssemos a a carniça – o mundo seria um deposito de lixo.
Mas, o que no começo era fartura foi se transformando em miséria, já não havia tantos animais mortos na mata. E, os poucos que sobreviveram fugiram do local, entre eles, todos os companheiros de minha espécie, exceto eu. Não sei por que não o fiz. Achava muito difícil deixar o local onde eu nasci e acreditava em dias melhores.
Eu passava dias sobrevoando a mata seca com o estômago vazio e não via uma única criatura viva ou morta. A paisagem parecia um cemitério abandonado, pois só se viam as ossadas dos animais mortos pela seca, e de outros devorados por nós abutres.
Talvez não tivesse sido uma boa idéia ter ficado ali, talvez, eu devesse ter fugido com os meus companheiros para um local mais abastado (Eu pensei). Mas agora já era tarde. Há muito tempo não comia bem e, com certeza, não agüentaria uma longa jornada de vôo debaixo de sol forte.
Eu já me considerava abandonado à própria sorte-, era um abutre morto, que agora, ao invés de devorar cadáveres – eu seria o cadáver devorado pelos vermes da terra!
Numa manhã, quando eu estava pousado no alto do galho seco de uma árvore tive a atenção despertada por um barulho de carro e fiquei em alerta. Do alto da árvore pude ver um carro contornando o capim seco em direção a um vale, que ficava bem no interior da mata, e que até onde eu sabia espécie animal alguma vivia lá.
“Humanos aqui!” pensei comigo. É estranho, muito estranho, o que será que eles querem? O que fazem aqui? Eu nunca tinha visto humanos por aqui, será que estão caçando? Não, impossível.
Não há mais vida nesta mata. Resolvi segui-los à distancia, e quando o carro parou no suposto local, - próximo às margens do lago que ficava entre os rochedos e moitas do vale eu pousei numa rocha e fiquei espiando-os de longe. Para mim foi uma surpresa descobrir que a seca não havia castigado aquela parte obscura da mata.
Eles desceram do carro, eram dois homens bem robustos, saudáveis e de ótimo porte físico. De minha parte lamentei que os dois já não estivessem mortos e uma densa laiva escorreu de minha boca e evaporou-se na terra seca. Fazia tempo que não tinha uma refeição decente, e naquele instante fiquei ansioso em provar o exótico sabor da carne humana.
O local era aberto e se podia ouvir o menor ruído, então pude ouvir a conversa deles:
- Este é o local que lhe falei James, os diamantes estão no fundo deste lago – vamos pegar uma boa quantidade deles e ficaremos ricos, - disse um dos homens.
- Maravilha, Terence! Vamos armar acampamento aqui e começarmos a trabalhar agora mesmo, - disse o outro homem. Mas, diga-me Terence – como descobriu este local e que nele há diamantes? Perguntou James.
- É uma longa história meu caro James. Muitos historiadores e ambientalistas disseram que há muitos anos esta área era coberta de ouro e diamantes, então se realizaram várias expedições para explorarem estas riquezas e muitas espécies de animais foram mortas, parte da mata foi destruída, e por isso as autoridades locais proibiram as expedições nesta mata, mas agora com esta estiagem parece que eles se esqueceram do problema, e podemos pegar os diamantes à vontade sem a preocupação de sermos presos. Ah!Ah!Ah! – disse Terence às gargalhadas.
- De certa forma é um crime, podemos ser presos, pois invadimos uma área protegida pelo governo, se soubesse disso não teria vindo com você, - disse James.
- Escuta aqui, você não quer pegar as drogas dos diamantes, ficar rico e sair da miséria, - disse Terence com um olhar hostil segurando James pelo colarinho.
- Sim, eu quero – disse James.
- Então, cale a boca e vamos começar a trabalhar – gritou Terence.
E ambos descarregaram a bagagem do carro, armaram a barraca, montaram o acampamento e começaram a garimpar.
Terence vestiu o equipamento de mergulho e foi para o fundo do lago, enquanto James ficou à margem do lago com uma peneira em mãos. Ele mergulhava o instrumento até o fundo do rio e ia peneirando à procura dos diamantes.
O sol ardia no local, e eu, faminto, espreitava os homens a uma certa distãncia. Ao cair da tarde, eles saíram da água para descansarem e contarem os números de diamantes encontrados. Então Terence falou:
- Ótimo, já temos uma boa quantidade só no primeiro dia.
- Eu também acho – disse James concordando com o amigo.
Acenderam uma fogueira, pegaram alguns mantimentos, comeram, e em seguida, pegaram os sacos de dormir, vestiram-nos e dormiram.
A noite caiu e os dois homens dormiam profundamente, a fogueira já estava em brasa, então sobrevoei solenemente para não desperta-los e aproximei-me deles. Pousei há poucos metros de distância e fiquei velando o sono deles, e enquanto isso pensava:
- Ah se já estivessem mortos! Dariam um ótimo banquete. De repente, um deles despertou e começou a se mover bem lentamente, - era Terence.
Levantou-se, olhou para o companheiro que dormia profundamente e dirigiu-se, lentamente, até os sacos onde os diamantes estavam guardados. Ele enfiava a mão no saco, enchia-a com as pedras e deixava-as cair novamente no saco diante dos olhos. Ao mesmo tempo sussurrava em voz baixa:
- Durma idiota, durma que eu cuido dos meus diamantes, só mais dois dias – só amanhã e depois até pegarmos uma boa quantidade de diamantes, então vou matá-lo e ficar com tudo para mim.
Dito isto, Terence voltou para o saco de dormir e pegou no sono.
Que traidor, vai matar o próprio companheiro para ficar com os diamantes! Por um lado isto era bom para mim, pois se Terence matasse James eu teria o que comer, sim, isto era ótimo, e era só uma questão de tempo, de espera.
Na manhã seguinte, ao acordarem, os homens lavaram os rostos, tomaram café e se preparam para trabalharem.
Terence novamente vestiu seu equipamento de mergulho, e foi para o fundo do lago enquanto James continuou garimpando às margens do lago. Desta vez fui mais ousado do que as outras vezes, voei até à margem do lago e pousei grasnando em frente de James para chamar-lhe a atenção.
Ele me olhou de maneira desconfiada e disse:
- Se estiver com fome bichinho, é bom esquecer, pois meu sabor é muito ruim, e estou longe de morrer-, e continuou trabalhando.
Pobre tolo, - eu pensei. Se pudesse me comunicar com ele falaria que seus dias estavam contados, porém perderia minha refeição.
Percebi bolhas saindo da água, era Terence, que voltava à superfície, então voei e pousei no topo da barraca.
Terence emergiu e veio com James até a beira do lago com um saco na mão e perguntou a James o que era aquilo apontando em minha direção. – O que é aquilo?
- É só um abutre – respondeu.
- Mas que bicho horroroso, isto é um mau presságio. Esta é uma ave agoureira e traz má sorte-, você nunca ouviu falar de tragédias presenciadas ou assistidas por urubus?! Perguntou Terence horrorizado.
- É só crendice popular – respondeu James.
- De qualquer forma não permitirei que esta horrível criatura fique nos observando e nos agourando com seu olhar diabólico. – Disse Terence.
Apanhou uma pedra e atirou em mim. Por sorte eu estava há uma boa distãncia e a pedrada não me acertou em cheio, e então voei para mais distante e continuei observando os homens.
Que miserável! Eu exclamei-, bem que poderia ser este maldito que tivesse que morrer.
A tarde caiu-, os homens descansavam, comiam, bebiam e davam risadas ao lado da fogueira enquanto contavam os diamantes.
- Estamos ricos – gritava Terence erguendo o caneco com a bebida. O fundo do lago está repleto dessas preciosidades, nem que vivêssemos cem anos extrairíamos todos os diamantes do fundo, - continuava o homem.
- É, e o melhor é que por o local ser numa mata deserta fica muito mais seguro o nosso trabalho, pois quem imaginará encontrar estas riquezas aqui, - disse James meio entorpecido pela bebida.
A noite caiu e eles dormiram. Eu continuei de tocaia velando o sono deles e ansioso para o momento em que Terence matasse James e eu pudesse devorá-lo. Esta era a penúltima noite, amanhã Terence mataria o companheiro e eu teria uma farta refeição.
A madrugada avançou e, novamente, Terence levantou-se à surdina, aproximou-se dos diamantes e ratificou seu plano macabro:
-Ah, meus diamantes, amanhã serão só vocês e eu! E enquanto a James ah, - eu direi que se perdeu na mata, ou que fora devorado por algum animal, ou que morreu de malária. Diria que eu o alertara de que esta era uma área protegida, mas que ele não dera atenção a minha advertência e foi assim mesmo, isso, se alguém por ele perguntasse. Ninguém, praticamente, sabia que estávamos ali.
E eu, à distância esperava o momento, pacientemente, e, enquanto aguardava – pensava: muito genial esta tenebrosa ação está sendo testemunhada por mim-, faz jus às crendices populares que as desgraças são assistidas por entes agoureiros.
Terence voltou ao local para dormir.
Chegou a manhã, o dia do crime e da minha tão esperada refeição. Os homens se levantaram, lavaram os rostos e tomaram café. Então Terence disse:
- Hoje é o nosso último dia James-, vamos desmontar o acampamento e guardar as nossas coisas, vamos deixar só os equipamentos que precisaremos para recolhermos mais um pouco dos diamantes.
- Eu concordo Terence, vamos desmontar a barraca e deixar tudo pronto para a nossa partida – disse James.
Os homens começaram a desarmar a barraca e guardarem os equipamentos no carro. O sol raiava fortemente no céu, estava um dia bastante quente, o solo seco e arenoso ardia com o calor.
Quando o acampamento já estava desmontado, James apanhou uma vareta seca e cumprida, abriu o tanque de gasolina e verificou se tinham combustível suficiente para cruzarem a mata.
James apanhou o galão de gasolina e gritou para Terence que se preparava para mergulhar no lago:
- Terence acho que a gasolin que tem no carro nõa é o suficiente para atravessarmos a mata-, vou colocar o reserva.
- Sim, mas deixe isto para depois quando o sol esfriar mais, agora está muito quente e pode ser perigoso. Venha – vamos apanhar mais alguns diamantes. Disse Terence.
- Tudo bem – disse James. E como num deslize, James deixou o galão destampado à sombra encostado no pneu traseiro do carro e foi até á margem do lago.
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
O verão passado tinha sido um dos mais rigorosos dos últimos tempos. A estiagem castigava a mata, que já estava parecendo mais com um deserto do que uma floresta.
A vegetação estava seca pelo calor excessivo, e muitos lagos e rios secaram também. Faltava água e comida para muitos animais e, muitas espécies não resistiram e sucumbiram.
A princípio, isto foi vantagem para mim e outros companheiros de minha espécie, pois como carniceiros alimentavámo-nos dos inúmeros cadáveres de animais silvestres que se encontravam a farta pela mata. É o chamado equilíbrio da natureza, pois se não comêssemos a a carniça – o mundo seria um deposito de lixo.
Mas, o que no começo era fartura foi se transformando em miséria, já não havia tantos animais mortos na mata. E, os poucos que sobreviveram fugiram do local, entre eles, todos os companheiros de minha espécie, exceto eu. Não sei por que não o fiz. Achava muito difícil deixar o local onde eu nasci e acreditava em dias melhores.
Eu passava dias sobrevoando a mata seca com o estômago vazio e não via uma única criatura viva ou morta. A paisagem parecia um cemitério abandonado, pois só se viam as ossadas dos animais mortos pela seca, e de outros devorados por nós abutres.
Talvez não tivesse sido uma boa idéia ter ficado ali, talvez, eu devesse ter fugido com os meus companheiros para um local mais abastado (Eu pensei). Mas agora já era tarde. Há muito tempo não comia bem e, com certeza, não agüentaria uma longa jornada de vôo debaixo de sol forte.
Eu já me considerava abandonado à própria sorte-, era um abutre morto, que agora, ao invés de devorar cadáveres – eu seria o cadáver devorado pelos vermes da terra!
Numa manhã, quando eu estava pousado no alto do galho seco de uma árvore tive a atenção despertada por um barulho de carro e fiquei em alerta. Do alto da árvore pude ver um carro contornando o capim seco em direção a um vale, que ficava bem no interior da mata, e que até onde eu sabia espécie animal alguma vivia lá.
“Humanos aqui!” pensei comigo. É estranho, muito estranho, o que será que eles querem? O que fazem aqui? Eu nunca tinha visto humanos por aqui, será que estão caçando? Não, impossível.
Não há mais vida nesta mata. Resolvi segui-los à distancia, e quando o carro parou no suposto local, - próximo às margens do lago que ficava entre os rochedos e moitas do vale eu pousei numa rocha e fiquei espiando-os de longe. Para mim foi uma surpresa descobrir que a seca não havia castigado aquela parte obscura da mata.
Eles desceram do carro, eram dois homens bem robustos, saudáveis e de ótimo porte físico. De minha parte lamentei que os dois já não estivessem mortos e uma densa laiva escorreu de minha boca e evaporou-se na terra seca. Fazia tempo que não tinha uma refeição decente, e naquele instante fiquei ansioso em provar o exótico sabor da carne humana.
O local era aberto e se podia ouvir o menor ruído, então pude ouvir a conversa deles:
- Este é o local que lhe falei James, os diamantes estão no fundo deste lago – vamos pegar uma boa quantidade deles e ficaremos ricos, - disse um dos homens.
- Maravilha, Terence! Vamos armar acampamento aqui e começarmos a trabalhar agora mesmo, - disse o outro homem. Mas, diga-me Terence – como descobriu este local e que nele há diamantes? Perguntou James.
- É uma longa história meu caro James. Muitos historiadores e ambientalistas disseram que há muitos anos esta área era coberta de ouro e diamantes, então se realizaram várias expedições para explorarem estas riquezas e muitas espécies de animais foram mortas, parte da mata foi destruída, e por isso as autoridades locais proibiram as expedições nesta mata, mas agora com esta estiagem parece que eles se esqueceram do problema, e podemos pegar os diamantes à vontade sem a preocupação de sermos presos. Ah!Ah!Ah! – disse Terence às gargalhadas.
- De certa forma é um crime, podemos ser presos, pois invadimos uma área protegida pelo governo, se soubesse disso não teria vindo com você, - disse James.
- Escuta aqui, você não quer pegar as drogas dos diamantes, ficar rico e sair da miséria, - disse Terence com um olhar hostil segurando James pelo colarinho.
- Sim, eu quero – disse James.
- Então, cale a boca e vamos começar a trabalhar – gritou Terence.
E ambos descarregaram a bagagem do carro, armaram a barraca, montaram o acampamento e começaram a garimpar.
Terence vestiu o equipamento de mergulho e foi para o fundo do lago, enquanto James ficou à margem do lago com uma peneira em mãos. Ele mergulhava o instrumento até o fundo do rio e ia peneirando à procura dos diamantes.
O sol ardia no local, e eu, faminto, espreitava os homens a uma certa distãncia. Ao cair da tarde, eles saíram da água para descansarem e contarem os números de diamantes encontrados. Então Terence falou:
- Ótimo, já temos uma boa quantidade só no primeiro dia.
- Eu também acho – disse James concordando com o amigo.
Acenderam uma fogueira, pegaram alguns mantimentos, comeram, e em seguida, pegaram os sacos de dormir, vestiram-nos e dormiram.
A noite caiu e os dois homens dormiam profundamente, a fogueira já estava em brasa, então sobrevoei solenemente para não desperta-los e aproximei-me deles. Pousei há poucos metros de distância e fiquei velando o sono deles, e enquanto isso pensava:
- Ah se já estivessem mortos! Dariam um ótimo banquete. De repente, um deles despertou e começou a se mover bem lentamente, - era Terence.
Levantou-se, olhou para o companheiro que dormia profundamente e dirigiu-se, lentamente, até os sacos onde os diamantes estavam guardados. Ele enfiava a mão no saco, enchia-a com as pedras e deixava-as cair novamente no saco diante dos olhos. Ao mesmo tempo sussurrava em voz baixa:
- Durma idiota, durma que eu cuido dos meus diamantes, só mais dois dias – só amanhã e depois até pegarmos uma boa quantidade de diamantes, então vou matá-lo e ficar com tudo para mim.
Dito isto, Terence voltou para o saco de dormir e pegou no sono.
Que traidor, vai matar o próprio companheiro para ficar com os diamantes! Por um lado isto era bom para mim, pois se Terence matasse James eu teria o que comer, sim, isto era ótimo, e era só uma questão de tempo, de espera.
Na manhã seguinte, ao acordarem, os homens lavaram os rostos, tomaram café e se preparam para trabalharem.
Terence novamente vestiu seu equipamento de mergulho, e foi para o fundo do lago enquanto James continuou garimpando às margens do lago. Desta vez fui mais ousado do que as outras vezes, voei até à margem do lago e pousei grasnando em frente de James para chamar-lhe a atenção.
Ele me olhou de maneira desconfiada e disse:
- Se estiver com fome bichinho, é bom esquecer, pois meu sabor é muito ruim, e estou longe de morrer-, e continuou trabalhando.
Pobre tolo, - eu pensei. Se pudesse me comunicar com ele falaria que seus dias estavam contados, porém perderia minha refeição.
Percebi bolhas saindo da água, era Terence, que voltava à superfície, então voei e pousei no topo da barraca.
Terence emergiu e veio com James até a beira do lago com um saco na mão e perguntou a James o que era aquilo apontando em minha direção. – O que é aquilo?
- É só um abutre – respondeu.
- Mas que bicho horroroso, isto é um mau presságio. Esta é uma ave agoureira e traz má sorte-, você nunca ouviu falar de tragédias presenciadas ou assistidas por urubus?! Perguntou Terence horrorizado.
- É só crendice popular – respondeu James.
- De qualquer forma não permitirei que esta horrível criatura fique nos observando e nos agourando com seu olhar diabólico. – Disse Terence.
Apanhou uma pedra e atirou em mim. Por sorte eu estava há uma boa distãncia e a pedrada não me acertou em cheio, e então voei para mais distante e continuei observando os homens.
Que miserável! Eu exclamei-, bem que poderia ser este maldito que tivesse que morrer.
A tarde caiu-, os homens descansavam, comiam, bebiam e davam risadas ao lado da fogueira enquanto contavam os diamantes.
- Estamos ricos – gritava Terence erguendo o caneco com a bebida. O fundo do lago está repleto dessas preciosidades, nem que vivêssemos cem anos extrairíamos todos os diamantes do fundo, - continuava o homem.
- É, e o melhor é que por o local ser numa mata deserta fica muito mais seguro o nosso trabalho, pois quem imaginará encontrar estas riquezas aqui, - disse James meio entorpecido pela bebida.
A noite caiu e eles dormiram. Eu continuei de tocaia velando o sono deles e ansioso para o momento em que Terence matasse James e eu pudesse devorá-lo. Esta era a penúltima noite, amanhã Terence mataria o companheiro e eu teria uma farta refeição.
A madrugada avançou e, novamente, Terence levantou-se à surdina, aproximou-se dos diamantes e ratificou seu plano macabro:
-Ah, meus diamantes, amanhã serão só vocês e eu! E enquanto a James ah, - eu direi que se perdeu na mata, ou que fora devorado por algum animal, ou que morreu de malária. Diria que eu o alertara de que esta era uma área protegida, mas que ele não dera atenção a minha advertência e foi assim mesmo, isso, se alguém por ele perguntasse. Ninguém, praticamente, sabia que estávamos ali.
E eu, à distância esperava o momento, pacientemente, e, enquanto aguardava – pensava: muito genial esta tenebrosa ação está sendo testemunhada por mim-, faz jus às crendices populares que as desgraças são assistidas por entes agoureiros.
Terence voltou ao local para dormir.
Chegou a manhã, o dia do crime e da minha tão esperada refeição. Os homens se levantaram, lavaram os rostos e tomaram café. Então Terence disse:
- Hoje é o nosso último dia James-, vamos desmontar o acampamento e guardar as nossas coisas, vamos deixar só os equipamentos que precisaremos para recolhermos mais um pouco dos diamantes.
- Eu concordo Terence, vamos desmontar a barraca e deixar tudo pronto para a nossa partida – disse James.
Os homens começaram a desarmar a barraca e guardarem os equipamentos no carro. O sol raiava fortemente no céu, estava um dia bastante quente, o solo seco e arenoso ardia com o calor.
Quando o acampamento já estava desmontado, James apanhou uma vareta seca e cumprida, abriu o tanque de gasolina e verificou se tinham combustível suficiente para cruzarem a mata.
James apanhou o galão de gasolina e gritou para Terence que se preparava para mergulhar no lago:
- Terence acho que a gasolin que tem no carro nõa é o suficiente para atravessarmos a mata-, vou colocar o reserva.
- Sim, mas deixe isto para depois quando o sol esfriar mais, agora está muito quente e pode ser perigoso. Venha – vamos apanhar mais alguns diamantes. Disse Terence.
- Tudo bem – disse James. E como num deslize, James deixou o galão destampado à sombra encostado no pneu traseiro do carro e foi até á margem do lago.
O mutilador
O mutilador
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
A história que vou narrar é de uma vingança, uma questão de honra, a honra dos meus amigos Ruth e Èrick, e a minha honra, a nossa honra, que precisou e foi lavada com sangue, muito sangue e muita perversidade, maldade e ódio! Porém não deixa de ser de fato uma história de terror e morte. Nos últimos tempos eu fui um verdadeiro monstro, mais terrível, perverso e sanguinário do que se possa imaginar, por isso, se você não tiver nervos de aço, estômago e sangue frio para continuar lendo esta história, - pode parar aqui mesmo.
A noite estava bem agradável, não fazia muito calor e nem muito frio. Era um dia perfeito e eu estava muito ansioso por aquele momento.
Foram meses de investigações, negociações e planejamentos, e finalmente, a presa mordera a isca, tudo estava sobre meu controle e não poderia haver falhas.
Ah! Walace Lactor já estava morto e nem sabia, disso eu tinha certeza, porque uma pessoa ambiciosa e obcecada pelo dinheiro se torna uma presa fácil, mesmo se tratando de um homicida experiente como era Walace Lactor, - ele não sabia que estava negociando com a morte!
Diferente dele que arrancava os órgãos das pessoas e as matava para abastecer o tráfico de órgãos humanos e se enriquecer com ele, - o meu propósito era dar a ele uma amostra de seu próprio veneno. Faze-lo sentir não só na própria carne como também na alma, a mesma dor e o medo que meus amigos e eu, e tantas pessoas sentiram quando foram vítimas de sua perversidade.
Ele agia praticamente sozinho na cidade, porém de maneira astuta e cautelosa, nunca deixava rastros de seus crimes. As vítimas eram aliciadas numa casa de shows, que funcionava, clandestinamente, num local recôndito na cidade de São Paulo.
Os jovens iam ao local a fim de se divertirem, conhecer pessoas novas, curtir uma música eletrônica, beijar muito, tomar todas, fazer sexo com belas garotas, enfim, todo tipo de farra que uma casa noturna da cidade grande oferece.
Porém, o local funcionava como fachada para esconder o tráfico de órgãos humanos. No meio da madrugada, quando os jovens já estavam embriagados e extasiados, - eram conduzidos até o reservado. Lá, antes da transa, as prostitutas os dopavam e depois eles eram conduzidos para os confins da cidade onde funcionava a clínica clandestina de Walace Lactor.
A clínica de Walace Lactor era um verdadeiro holocausto, lá, não só se traficava órgãos humanos, mas realizavam-se abortos clandestinos também. O cativeiro era bem organizado apesar de pequeno. Possuía uma cela onde as vítimas ficavam presas, um quarto gelado onde os órgãos eram guardados até sua exportação, a sala de cirurgia era equipada com instrumentos cirúrgicos de primeira qualidade e a mesa de operação, e havia um cômodo equipado com uma fornalha elétrica onde funcionava uma espécie de crematório que Walace Lactor usava para se desfazer dos despojos humanos.
Àquela noite era muito especial para mim, pois depois de muito tempo e de muito trabalho duro, eu consegui fechar negócio, marcar um encontro, e ficar cara a cara com o meu algoz sem que ele me reconhecesse.
A pontualidade é algo que eu sempre admirei e preservei. O encontro estava marcado para as dezenove horas, no entanto, eu cheguei ao local meia hora antes e Walace Lactor já me aguardava pacientemente:
-Boa noite, - senhor Walace Lactor?
Sim. –Ele respondeu.
-Muito prazer! William Dickson, para servi-lo, senhor. –Disse eu, apertando-lhe a mão com firmeza e veemência.
O leitor não pode imaginar o sacrifício que fiz para conter, naquele momento, o júbilo de tirar meu estilete do bolso do meu sobretudo e finca-lo com toda a força no seu olho esquerdo e mata-lo de uma vez ali mesmo. Mas contive-me porque seria fácil demais, - ele não iria sofrer, - o que não era o que eu queria, além disso, o bar estava cheio e o local era bem movimentado.
Meu propósito era torturá-lo, mata-lo e escapar impune, por isso não poderia me descuidar, qualquer erro ali poderia ser fatal, - ele poderia desconfiar e, tudo iria por água abaixo. Então eu prossegui o diálogo:
-Desculpe-me não tirar o meu chapéu e os óculos escuros senhor Lactor, mas é que quando trato deste tipo de negócio em público, - procuro ocultar o máximo a minha imagem, se o senhor não se importar?...
- Não se preocupe, fique a vontade senhor Dickson, - trouxe o material do qual me falou? Ele perguntou.
Sim, claro, - eu trouxe sim, senhor. Eu respondi, - depositando sobre a mesa um note book com fotos de adolescentes arianos e sarados, e da suposta clínica que eu trabalhava.
- Aí estão as fotos dos adolescentes e da minha clínica que lhe falei. O local fica próximo da serra da Cantareira, um lugar bem seguro e discreto que não desperta nada de suspeito. As minhas cobaias estão bem seguras também. Eu falei.
-Como o senhor pode observar nas fotos todos gozam de boa saúde e vitalidade e, com certeza, nós vamos faturar uma boa grana com os órgãos deles, - eu continuei.
-Pode olhá-los à vontade enquanto eu peço dois martínis bem secos para nós comemorarmos nossa sociedade, é sempre bom fechar negócio com pessoas inteligentes como o senhor. –Eu falei - acenando com a mão para o garçom.
-Dois martínis bem secos, por favor. Eu pedi.
Particularmente senhor Lactor, eu acho bem mais fácil seqüestrar ou atrair crianças e adolescentes com dinheiro ou falsas promessas do que em prostíbulos. –Disse eu enquanto o garçom trouxe as bebidas.
Walace Lactor olhava o material com minucioso interesse!- Há quanto tempo o senhor está nesse negócio, senhor Dickson? Ele perguntou.
Já faz algum tempo, senhor Lactor, e posso garantir ao senhor que é um ótimo negócio, - o senhor não se arrependerá. Se a venda for internacional, dependendo do órgão e da necessidade do comprador, poderemos vendê-lo até por oito mil dólares. - Eu falei.
Certo, e quais as garantias que o senhor me dá para eu saber que não estou entrando numa fria? Ele perguntou.
-Senhor Lactor, por favor, estou negociando com o senhor há meses, - o senhor acha que se eu fosse algum repórter ou até mesmo um policial já não teria tido tempo suficiente para desmanchar o seu negócio e o colocado atrás das grades? O meu interesse com o senhor é totalmente profissional. Eu falei.
Sim, tem razão. - Ele respondeu.
-Então, por isso eu marquei este encontro aqui com o senhor, e trouxe este material para fecharmos negócio. - Eu gostaria que o senhor o olhasse e fosse comigo até a minha clínica para uma visita de reconhecimento, pois trabalho sozinho e quase não estou dando conta de tanto trabalho. Eu continuei.
Sim, eu o entendo senhor Dickson, - o senhor me parece ser de confiança. - Disse ele todo confiante e seguro de minhas boas maneiras – mas sem saber de minhas verdadeiras intenções!
-É isso mesmo senhor Lactor, - eu respondi com grande satisfação e entusiasmo.
Bom, eu gostei da sua proposta, acho um negócio seguro e não vejo motivo para recusar a sua oferta, está bem, eu aceito - negócio fechado!- Disse ele apertando a minha sem saber que, naquele momento, ele estava assinando sua sentença de morte.
-Ótimo senhor Lactor, então brindemos ao nosso sucesso e a nossa amizade! Disse eu.
Tilintamos os copos e tomamos o martíni.
-Deixe que eu pago a conta senhor Lactor, - eu falei.
Saímos do bar, entramos no meu carro e pegamos a estrada em direção a Serra da Cantareira. Pelo caminho conversávamos a respeito do negócio.
-Estou muito satisfeito por ter feito negócio com o senhor, a sua vida e integridade física agora me pertencem senhor Lactor! Eu falei.
E o miserável, que já começava a empalidecer, suar frio, oscilar, não só entendeu mais nada como já falava trêmulo e desenfreado:
-O que?... Por favor, fale mais baixo, - a minha cabeça vai explodir! Quem é você?... O que fez comigo?... O que quer de mim?... Para onde está me levando?... Ele perguntava com bastante dificuldade.
Calma, senhor Lactor. O narcótico que eu coloquei no seu martini não irá mata-lo, apenas o deixará indefeso até chegarmos à minha clínica. Eu falei.
O senhor estava tão distraído vendo as fotos que nem percebeu quando eu coloquei a droga no seu copo, - foi fácil demais – eu falei.
-Quem é você miserável?... Para onde estamos indo?... Ele perguntou.
Confesso que achei que me reconheceria quando nos encontrássemos novamente, senhor Lactor! Disse eu.
-O que?... Quem é você?... Responda?... Responda?... Responda seu desgraçado?... Falava o infeliz, trêmulo, suado e com a língua enrolada não só pelo efeito da droga, mas também pelo terror e com a desagradável surpresa!
Âh! Ah! Ah!... Permita-me que eu me apresente senhor Lactor, - disse eu tirando o chapéu e os óculos escuros para o espanto do infeliz!
Quando Lactor baixou o olhar em meu rosto começou a tremer mais freneticamente e a gaguejar:
Vo... vo... vo... você!... Impossível! Você não estava morto?! Ele perguntou.
Sem dúvida a falta do meu olho esquerdo na órbita me causava uma aparência horrenda, medonha, assustadora e monstruosa. Eu próprio temia a minha imagem, sofria diante de um espelho e sempre que podia – procurava evita-los.
Surpreso, senhor Lactor? Eu perguntei.
Isto não é tudo, olhe! Eu continuei. Levantei a lateral direita da camisa e mostrei uma enorme e monstruosa cicatriz na minha cintura!
Walace Lactor arregalou a boca e os olhos, horrorizado com o que viu, mas não entendeu nada.
-Não!... Não!... Você não é real, você está morto! Eu mesmo enterrei você aquela noite! Ele falou.
Senhor Lactor temos muito caminho pela frente, vamos recapitular tudo que aconteceu aquela noite – a noite que o senhor destruiu nossas vidas, - disse eu enquanto dirigia:
Tudo que Ruth, Érick e eu queríamos aquela noite era só nos divertirmos, mas graças aos seus cúmplices e ao senhor foi a pior noite de nossas vidas!
O senhor não imagina como foi terrível para eu ver a maneira cruel e sanguinária que o senhor matou os meus amigos! E não só os meus amigos, mas as outras cobaias vítimas de sua perversidade e ambição, - as marcas são profundas, - quase todas as noites, - acordo horrorizado sonhando com pessoas mutiladas pelo senhor. Até hoje posso ouvir as súplicas e os gritos de desespero de Érick e Ruth implorando, suplicando por suas vidas:
-Socorro! Pelo amor de Deus! Ajudem-me! Eu imploro!
E o senhor, friamente, os matou! Eu tenho guardado até hoje a imagem da pobre Ruth sendo dilacerada pelo seu bisturi e tesoura cirúrgica, e tendo seu coração, fígado e útero sendo bruscamente arrancados para abastecer o tráfico de órgãos humanos. E o pobre Érick:
Como ele chorou e implorou para ser poupado daquele martírio, aponto de urinar e vomitar na roupa enquanto seus rins eram extraídos com uma pinça! A maneira pela qual o senhor se livrou dos corpos, esquartejando-os e jogando seus despojos naquela fornalha elétrica até virarem cinzas.
E por fim foi a minha vez:
O senhor não pode imaginar o imenso terror, o tamanho da dor de sentir um bisturi entrando na carne, e eu ali amarrado numa mesa sem poder me defender, sentindo o rim e olho serem extraídos! Ah, que dor e sensação horrível de sentir seu olho sendo arrancado da órbita com uma pinça cirúrgica!
Mas naquela noite, senhor Lactor, - o senhor não poderia imaginar que a fornalha fosse enguiçar, e tampouco, que minha suposta parada cardíaca fosse um simples desmaio e que eu recuperaria os sentidos mais tarde, não é mesmo? Eu falei.
Além disso, o senhor estava cansado demais para me esquartejar, já que este, é um trabalho muito desgastante, não é? Eu perguntei.
Foi bem mais fácil o senhor ter me enterrado vivo naquele matagal, não é senhor Lactor? Eu continuei.
Diga-me uma coisa senhor Lactor? O senhor acredita em Deus?
Ele me olhou trêmulo e aterrorizado, mas não pronunciou uma única palavra!
Entendo, eu já passei por isso antes e sei que fica muito difícil para o caçador falar quando ele se torna a caça! Não é verdade? Eu perguntei sem obter resposta.
Âh!... Âh!... Ah!... Olhe senhor Lactor, eu vou lhe dizer uma coisa: eu acredito muito em Deus, porém não acredito que foi Deus que me salvou aquela noite. Deus quer a paz e não gosta de vingança, e se ele soubesse que eu voltaria para pegar o senhor, com certeza, ele me deixaria morrer ali naquela cova. O senhor não concorda? Eu perguntei.
Novamente não obtive resposta da figura apavorada no banco do carona.
Lúcifer! Lúcifer, o príncipe das trevas, - ele que gosta de vingança e de maldade, sim talvez ele tenha me salvado e permitido que eu voltasse para pegar o senhor. Eu falei.
Senhor Lactor, se por acaso o senhor tiver outra chance como aquela, o que é impossível, cave uma cova mais profunda. Como você foi idiota em acreditar numa conversa fiada como esta. Todas aquelas provas eram falsas, - eu as consegui revirando em lixo hospitalar, igualmente as fotos que também foram forjadas, estas pessoas não estão em meu poder. Eu continuei.
Ora, que graça teria quando eu escapasse daquela sepultura e fosse denunciá-lo às autoridades? O senhor perderia seu diploma, sua licença médica e, talvez, pegaria alguns anos de cadeia, isto, se o senhor não fosse absolvido devido ao seu prestígio e dinheiro. Não chegaria nem aos pés do sofrimento que meus amigos e eu passamos. Eu continuei.
- Quanto você quer para me deixar ir?... Vamos fale?... Implorou o infeliz.
Ah!... Ah!... Ah!... Uma vida não tem preço senhor Lactor, ainda mais se for uma vida desprezível como a sua. Viu só! É esta sensação de pavor do senhor que tornam as coisas mais interessantes! Disse eu triunfante.
Olhe, já chegamos, o local é este. É como diz um trecho da música do rei Roberto Carlos: “se a conversa é boa o tempo logo passa...”. Disse eu enquanto estacionava o carro.
Agora senhor Lactor, - eu precisarei agir rápido antes que passe o efeito da droga. Eu falei.
Peguei um par de algemas e prendi seus pulsos, na seqüência, retirei o homem do carro e o conduzi até o cativeiro. – O miserável se sentiu tão apavorado e indefeso diante da minha terrível presença que nem ofereceu resistência alguma, - estava sobre meu domínio!
Lá chegando apresentei cada canto do local para a vítima:
Olhe senhor Lactor, eu preparei este local especialmente para o senhor, o ambiente é bem familiar, eis aqui a sala de cirurgia, - como o senhor pode ver, igualmente a sua, ela é equipada com aparelhos e instrumentos cirúrgicos da melhor qualidade. E aqui é a mesa de cirurgia, - disse eu rasgando as roupas da vítima bruscamente com uma faca, e na seqüência, deitando-o e prendendo a vítima despida na mesa.
Só um detalhe que eu ia me esquecendo de falar senhor Lactor. O senhor deve ter notado que aqui não há crematório, - eu disse.
Está ouvindo o ladrar dos cães lá fora? Eu perguntei.
A resposta foi um berro pavoroso e abafado que ecoou na sala inteira! O homem gritava e tentava se libertar das correntes que vibravam fortemente.
Outra coisa, - eu falei. Assim como o senhor eu também não uso anestesia, - espero que o senhor seja um homem bem resistente para suportar a dor! E pode gritar à vontade, pois já é noite, o local é deserto, de difícil acesso e ninguém poderá ouvi-lo. Além disso, ninguém com o juízo perfeito vêm aqui. Eu continuei.
Bem, onde eu estava? Perguntei comigo. - Ah sim, está ouvindo o ladrar dos cães lá fora, senhor Lactor?
Pois é, são três Pit Bulls famintos e sedentos de sangue! Há muito tempo eles não comem e, é a primeira vez que vão provar carne humana!- Disse eu enquanto colocava a touca, a máscara, o avental e as luvas para executar minha tarefa com um imenso prazer.
Não se preocupe senhor Lactor, pois eu não vou vender os seus órgãos para o exterior, já que eu não sou um traficante de órgãos.
O material que eu usei foi apenas para atrai-lo, e o preço, - acho que nem eu mesmo rejeitaria. - Disse eu apanhando o bisturi e cortando o ventre no infeliz!
-Aaaaah!!! Seu desgraçado! Gritava o homem enquanto eu arrancar o seu rim com a pinça e jogava o órgão no balde.
Pronto, um já se foi, - agora eu vou arrancar o outro – disse eu para o temor do homem! Utilizando a mão esquerda para abrir o corte no seu ventre, - meti a pinça dentro da abertura e arranquei bruscamente o outro rim!
Outro berro pavoroso ecoou na sala:
- Aaaaah!!! – Meu Deus!... Pare, por favor, - eu lhe imploro – socorro!
Está doendo muito senhor Lactor? Por quanto tempo mais o senhor pode suportar a dor? – Perguntei ironicamente.
-Vamos ver como o senhor fica sem o olho esquerdo? – Perguntei com o bisturi em punho em direção ao obstáculo:
-Não... Não... Por favor, Aaaah! Gritou o homem.
Enfiei o bisturi e arranquei o olho esquerdo de sua órbita!
Parar, - agora que está ficando divertido, quantas destas súplicas o senhor ouviu e não as atendeu, - eu falei.
Remexi várias vezes a bandeja de utensílios, - peguei uma navalha com a mão ensangüentada e fiz sinais de que iria arrancar-lhe o escroto! – Deveriam ter visto a cara de espanto que ele fez.
- Não... Não... Chega... Pare, por favor! Gritava o homem.
Sabe senhor Lactor, - o senhor me deixou cicatrizes profundas não só no corpo, mas também na alma, - não posso ter piedade de um homicida como o senhor, - devo isto aos meus amigos, - eu falei.
Cortei, friamente, sua bolsa escrotal e lancei-os no balde! – O desgraçado grunhiu, estrebuchou e contorceu-se preso na mesa de operação como um porco sucumbindo no abate, - todo ensangüentado e mutilado.
Walace Lactor se resvalava em sangue, apresentava sinais de que iria perder a consciência, o que não me comoveu nem um pouco. – Senhor Lactor, vou precisar de mais uma parte do seu corpo para alimentar meus bichinhos lá fora, - eles estão famintos!
- Não... Não... Por favor, pare! Suplicava o infeliz.
Liguei a furadeira elétrica, aproximei-me, lentamente do homem, - como para prolongar seu medo e agonia, - então, introduzi a ponta da furadeira no seu joelho esquerdo e depois no joelho direito!
O eco do seu berro pavoroso ressonou lá fora, - misturou-se com o ladrar dos cães e dissipou-se na escuridão da mata!
Apanhando o boticão na mão esquerda e a tesoura cirúrgica na mão direita, - introduzi o instrumento na sua boca, prendi sua língua, puxei-a para fora, estiquei-a, cortei-a e a lancei no balde!
Lactor! Lactor! Lactor! – Gritava eu sem obter resposta ou sinais de vida.
Pousei a mão em seu peito, - o coração estava fraco, porém ainda pulsava. Apanhei o bisturi elétrico, liguei-o e comecei a cortar seu tórax e uma chuva de sangue respingou sobre mim!
Peguei o separador e escancarei o tórax do homem, - o coração pulsava lentamente. Peguei o bisturi e fiquei a ver por quais dos órgãos iria começar a remoção, quando de súbito, a carcaça contorceu-se convulsivamente, levantou o rosto com um único olho arregalado, deu um berro pavoroso, lançou uma golfada de sangue no meu rosto e ficou inerte sobre o aposento!
- Miserável! – eu exclamei limpando o rosto.
Então, com muita cautela removi seu coração, os pulmões, fígado e intestino, e os depositei no balde e o levei para alimentar os cães!
Lá fora me aproximei dos cães famintos presos na jaula. Os animais estavam sedentos de sangue e loucos para saciarem a fome.
Peguei a escada e subi até o teto da jaula e lancei os órgãos de Lactor por uma pequena abertura – foi um banquete farto, em poucos minutos não restou nada, nenhuma gotinha de sangue, - se naquele momento tivesse lançado sua carcaça para eles, com certeza, ter-na-iam devorada por inteiro, - mas não o fiz.
Terminado o banquete, fui ao carro, peguei um revólver no porta-luvas, voltei ao local e atirei nas cabeças dos cães que trepidaram até a morte.
A noite avançava rumo à madrugada e eu trabalhava apressadamente. Envolvi a carcaça de Lactor num saco preto e o depositei no porta-malas do carro e, limpei todas as manchas de sangue visíveis do carro.
Apanhei um galão de gasolina e molhei o local inteiro para apagar as provas do crime. Depois fui me lavar e trocar aquela roupa suja com o sangue imundo de Walace Lactor para ir embora.
Pouco antes de sair do local do crime, - lancei um olhar perspicaz e triunfante em tudo e gritei para o vento:
- Foi um ótimo trabalho, suas mortes foram vingadas meus amigos, foi um crime de mestre!
Acendi o fósforo e ateei fogo no local, em poucos segundos, tudo ardia em chamas, o fogo consumira o cativeiro e tudo seria reduzido a pó.
Entrei no carro e fui em direção ao rio Tietê. Lá chegando, rapidamente, tirei a carcaça do carro e lancei nas águas sujas do rio, que foi arrastado pela forte correnteza.
“Ah! Um demônio a menos na face da terra, este só fará maldades no inferno agora.” - Disse eu comigo mesmo.
Caminhei apressado até um telefone público próximo ao local e fiz uma denúncia anônima de uma casa noturna que aliciava jovens para o abastecimento de tráfico de órgãos humanos e que também era ponto de drogas.
Naquela madrugada voltei para casa com um sentimento de satisfação que não cabia dentro do peito, e dormi sem o mínimo remorso pela ação vil que eu praticara contra o homem.
Passados alguns dias do assassinato, minha culpa pouco me incomodava, não sentia remorso algum. Passeava, tranqüilamente pela praça, fui até a banca de jornal e uma manchete da imprensa local me chamou a atenção, - era a respeito de três crimes supostamente ocorridos na mesma madrugada em horários e locais diferentes, porém que teriam sidos cometidos pelo mesmo criminoso:
- Um resto de carcaça humana que foi encontrada pelo corpo de bombeiros sendo devorada pelos urubus às margens do rio Tietê, e que não faziam idéia de quem poderia ser, tampouco, seria possível a identificação do corpo pelo IML.
- Um misterioso incêndio de um suposto cativeiro próximo da serra da Cantareira, - a destruição foi completa e ninguém sabia quem era o dono do local e se o incêndio foi criminoso.
- E do fechamento de uma casa noturna clandestina que aliciava jovens para o tráfico de órgãos humanos e era ponto de drogas, - os donos foram presos graças a uma denúncia anônima.
Lendo esta manchete, - fiquei ainda mais orgulhoso de mim mesmo. Finalmente a honra de Ruth, Érick e a minha foram lavadas com sangue, e o maldito Walace Lactor e seus cúmplices tiveram o que mereceram.
E, em breve, as fotos do respeitável doutor Walace Lactor estariam estampadas nas páginas dos jornais, e é claro, ninguém nunca saberia que a tal carcaça humana se tratava dele. Sua clínica, com certeza, fora abandona às traças e pelo menos ali, pessoas não seriam mais mutiladas para este fim tão cruel.
Mas é estranho, apesar de ter concluído minha vingança, de ter desfeito qualquer suspeita e ter escapado impune, - ainda estou me sentindo amargo, cheio de ódio, - ódio por toda humanidade, por todas as coisas do mundo e, indiferente ao sentimento alheio e com vontade de repetir o mesmo ato.
Agora é quase meio-dia, vou voltar para casa, me barbear, tomara banho, trocar o curativo do meu olho, almoçar e aproveitar o final da tarde para andar de bicicleta no parque do Ibirapuera.
Fim
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
A história que vou narrar é de uma vingança, uma questão de honra, a honra dos meus amigos Ruth e Èrick, e a minha honra, a nossa honra, que precisou e foi lavada com sangue, muito sangue e muita perversidade, maldade e ódio! Porém não deixa de ser de fato uma história de terror e morte. Nos últimos tempos eu fui um verdadeiro monstro, mais terrível, perverso e sanguinário do que se possa imaginar, por isso, se você não tiver nervos de aço, estômago e sangue frio para continuar lendo esta história, - pode parar aqui mesmo.
A noite estava bem agradável, não fazia muito calor e nem muito frio. Era um dia perfeito e eu estava muito ansioso por aquele momento.
Foram meses de investigações, negociações e planejamentos, e finalmente, a presa mordera a isca, tudo estava sobre meu controle e não poderia haver falhas.
Ah! Walace Lactor já estava morto e nem sabia, disso eu tinha certeza, porque uma pessoa ambiciosa e obcecada pelo dinheiro se torna uma presa fácil, mesmo se tratando de um homicida experiente como era Walace Lactor, - ele não sabia que estava negociando com a morte!
Diferente dele que arrancava os órgãos das pessoas e as matava para abastecer o tráfico de órgãos humanos e se enriquecer com ele, - o meu propósito era dar a ele uma amostra de seu próprio veneno. Faze-lo sentir não só na própria carne como também na alma, a mesma dor e o medo que meus amigos e eu, e tantas pessoas sentiram quando foram vítimas de sua perversidade.
Ele agia praticamente sozinho na cidade, porém de maneira astuta e cautelosa, nunca deixava rastros de seus crimes. As vítimas eram aliciadas numa casa de shows, que funcionava, clandestinamente, num local recôndito na cidade de São Paulo.
Os jovens iam ao local a fim de se divertirem, conhecer pessoas novas, curtir uma música eletrônica, beijar muito, tomar todas, fazer sexo com belas garotas, enfim, todo tipo de farra que uma casa noturna da cidade grande oferece.
Porém, o local funcionava como fachada para esconder o tráfico de órgãos humanos. No meio da madrugada, quando os jovens já estavam embriagados e extasiados, - eram conduzidos até o reservado. Lá, antes da transa, as prostitutas os dopavam e depois eles eram conduzidos para os confins da cidade onde funcionava a clínica clandestina de Walace Lactor.
A clínica de Walace Lactor era um verdadeiro holocausto, lá, não só se traficava órgãos humanos, mas realizavam-se abortos clandestinos também. O cativeiro era bem organizado apesar de pequeno. Possuía uma cela onde as vítimas ficavam presas, um quarto gelado onde os órgãos eram guardados até sua exportação, a sala de cirurgia era equipada com instrumentos cirúrgicos de primeira qualidade e a mesa de operação, e havia um cômodo equipado com uma fornalha elétrica onde funcionava uma espécie de crematório que Walace Lactor usava para se desfazer dos despojos humanos.
Àquela noite era muito especial para mim, pois depois de muito tempo e de muito trabalho duro, eu consegui fechar negócio, marcar um encontro, e ficar cara a cara com o meu algoz sem que ele me reconhecesse.
A pontualidade é algo que eu sempre admirei e preservei. O encontro estava marcado para as dezenove horas, no entanto, eu cheguei ao local meia hora antes e Walace Lactor já me aguardava pacientemente:
-Boa noite, - senhor Walace Lactor?
Sim. –Ele respondeu.
-Muito prazer! William Dickson, para servi-lo, senhor. –Disse eu, apertando-lhe a mão com firmeza e veemência.
O leitor não pode imaginar o sacrifício que fiz para conter, naquele momento, o júbilo de tirar meu estilete do bolso do meu sobretudo e finca-lo com toda a força no seu olho esquerdo e mata-lo de uma vez ali mesmo. Mas contive-me porque seria fácil demais, - ele não iria sofrer, - o que não era o que eu queria, além disso, o bar estava cheio e o local era bem movimentado.
Meu propósito era torturá-lo, mata-lo e escapar impune, por isso não poderia me descuidar, qualquer erro ali poderia ser fatal, - ele poderia desconfiar e, tudo iria por água abaixo. Então eu prossegui o diálogo:
-Desculpe-me não tirar o meu chapéu e os óculos escuros senhor Lactor, mas é que quando trato deste tipo de negócio em público, - procuro ocultar o máximo a minha imagem, se o senhor não se importar?...
- Não se preocupe, fique a vontade senhor Dickson, - trouxe o material do qual me falou? Ele perguntou.
Sim, claro, - eu trouxe sim, senhor. Eu respondi, - depositando sobre a mesa um note book com fotos de adolescentes arianos e sarados, e da suposta clínica que eu trabalhava.
- Aí estão as fotos dos adolescentes e da minha clínica que lhe falei. O local fica próximo da serra da Cantareira, um lugar bem seguro e discreto que não desperta nada de suspeito. As minhas cobaias estão bem seguras também. Eu falei.
-Como o senhor pode observar nas fotos todos gozam de boa saúde e vitalidade e, com certeza, nós vamos faturar uma boa grana com os órgãos deles, - eu continuei.
-Pode olhá-los à vontade enquanto eu peço dois martínis bem secos para nós comemorarmos nossa sociedade, é sempre bom fechar negócio com pessoas inteligentes como o senhor. –Eu falei - acenando com a mão para o garçom.
-Dois martínis bem secos, por favor. Eu pedi.
Particularmente senhor Lactor, eu acho bem mais fácil seqüestrar ou atrair crianças e adolescentes com dinheiro ou falsas promessas do que em prostíbulos. –Disse eu enquanto o garçom trouxe as bebidas.
Walace Lactor olhava o material com minucioso interesse!- Há quanto tempo o senhor está nesse negócio, senhor Dickson? Ele perguntou.
Já faz algum tempo, senhor Lactor, e posso garantir ao senhor que é um ótimo negócio, - o senhor não se arrependerá. Se a venda for internacional, dependendo do órgão e da necessidade do comprador, poderemos vendê-lo até por oito mil dólares. - Eu falei.
Certo, e quais as garantias que o senhor me dá para eu saber que não estou entrando numa fria? Ele perguntou.
-Senhor Lactor, por favor, estou negociando com o senhor há meses, - o senhor acha que se eu fosse algum repórter ou até mesmo um policial já não teria tido tempo suficiente para desmanchar o seu negócio e o colocado atrás das grades? O meu interesse com o senhor é totalmente profissional. Eu falei.
Sim, tem razão. - Ele respondeu.
-Então, por isso eu marquei este encontro aqui com o senhor, e trouxe este material para fecharmos negócio. - Eu gostaria que o senhor o olhasse e fosse comigo até a minha clínica para uma visita de reconhecimento, pois trabalho sozinho e quase não estou dando conta de tanto trabalho. Eu continuei.
Sim, eu o entendo senhor Dickson, - o senhor me parece ser de confiança. - Disse ele todo confiante e seguro de minhas boas maneiras – mas sem saber de minhas verdadeiras intenções!
-É isso mesmo senhor Lactor, - eu respondi com grande satisfação e entusiasmo.
Bom, eu gostei da sua proposta, acho um negócio seguro e não vejo motivo para recusar a sua oferta, está bem, eu aceito - negócio fechado!- Disse ele apertando a minha sem saber que, naquele momento, ele estava assinando sua sentença de morte.
-Ótimo senhor Lactor, então brindemos ao nosso sucesso e a nossa amizade! Disse eu.
Tilintamos os copos e tomamos o martíni.
-Deixe que eu pago a conta senhor Lactor, - eu falei.
Saímos do bar, entramos no meu carro e pegamos a estrada em direção a Serra da Cantareira. Pelo caminho conversávamos a respeito do negócio.
-Estou muito satisfeito por ter feito negócio com o senhor, a sua vida e integridade física agora me pertencem senhor Lactor! Eu falei.
E o miserável, que já começava a empalidecer, suar frio, oscilar, não só entendeu mais nada como já falava trêmulo e desenfreado:
-O que?... Por favor, fale mais baixo, - a minha cabeça vai explodir! Quem é você?... O que fez comigo?... O que quer de mim?... Para onde está me levando?... Ele perguntava com bastante dificuldade.
Calma, senhor Lactor. O narcótico que eu coloquei no seu martini não irá mata-lo, apenas o deixará indefeso até chegarmos à minha clínica. Eu falei.
O senhor estava tão distraído vendo as fotos que nem percebeu quando eu coloquei a droga no seu copo, - foi fácil demais – eu falei.
-Quem é você miserável?... Para onde estamos indo?... Ele perguntou.
Confesso que achei que me reconheceria quando nos encontrássemos novamente, senhor Lactor! Disse eu.
-O que?... Quem é você?... Responda?... Responda?... Responda seu desgraçado?... Falava o infeliz, trêmulo, suado e com a língua enrolada não só pelo efeito da droga, mas também pelo terror e com a desagradável surpresa!
Âh! Ah! Ah!... Permita-me que eu me apresente senhor Lactor, - disse eu tirando o chapéu e os óculos escuros para o espanto do infeliz!
Quando Lactor baixou o olhar em meu rosto começou a tremer mais freneticamente e a gaguejar:
Vo... vo... vo... você!... Impossível! Você não estava morto?! Ele perguntou.
Sem dúvida a falta do meu olho esquerdo na órbita me causava uma aparência horrenda, medonha, assustadora e monstruosa. Eu próprio temia a minha imagem, sofria diante de um espelho e sempre que podia – procurava evita-los.
Surpreso, senhor Lactor? Eu perguntei.
Isto não é tudo, olhe! Eu continuei. Levantei a lateral direita da camisa e mostrei uma enorme e monstruosa cicatriz na minha cintura!
Walace Lactor arregalou a boca e os olhos, horrorizado com o que viu, mas não entendeu nada.
-Não!... Não!... Você não é real, você está morto! Eu mesmo enterrei você aquela noite! Ele falou.
Senhor Lactor temos muito caminho pela frente, vamos recapitular tudo que aconteceu aquela noite – a noite que o senhor destruiu nossas vidas, - disse eu enquanto dirigia:
Tudo que Ruth, Érick e eu queríamos aquela noite era só nos divertirmos, mas graças aos seus cúmplices e ao senhor foi a pior noite de nossas vidas!
O senhor não imagina como foi terrível para eu ver a maneira cruel e sanguinária que o senhor matou os meus amigos! E não só os meus amigos, mas as outras cobaias vítimas de sua perversidade e ambição, - as marcas são profundas, - quase todas as noites, - acordo horrorizado sonhando com pessoas mutiladas pelo senhor. Até hoje posso ouvir as súplicas e os gritos de desespero de Érick e Ruth implorando, suplicando por suas vidas:
-Socorro! Pelo amor de Deus! Ajudem-me! Eu imploro!
E o senhor, friamente, os matou! Eu tenho guardado até hoje a imagem da pobre Ruth sendo dilacerada pelo seu bisturi e tesoura cirúrgica, e tendo seu coração, fígado e útero sendo bruscamente arrancados para abastecer o tráfico de órgãos humanos. E o pobre Érick:
Como ele chorou e implorou para ser poupado daquele martírio, aponto de urinar e vomitar na roupa enquanto seus rins eram extraídos com uma pinça! A maneira pela qual o senhor se livrou dos corpos, esquartejando-os e jogando seus despojos naquela fornalha elétrica até virarem cinzas.
E por fim foi a minha vez:
O senhor não pode imaginar o imenso terror, o tamanho da dor de sentir um bisturi entrando na carne, e eu ali amarrado numa mesa sem poder me defender, sentindo o rim e olho serem extraídos! Ah, que dor e sensação horrível de sentir seu olho sendo arrancado da órbita com uma pinça cirúrgica!
Mas naquela noite, senhor Lactor, - o senhor não poderia imaginar que a fornalha fosse enguiçar, e tampouco, que minha suposta parada cardíaca fosse um simples desmaio e que eu recuperaria os sentidos mais tarde, não é mesmo? Eu falei.
Além disso, o senhor estava cansado demais para me esquartejar, já que este, é um trabalho muito desgastante, não é? Eu perguntei.
Foi bem mais fácil o senhor ter me enterrado vivo naquele matagal, não é senhor Lactor? Eu continuei.
Diga-me uma coisa senhor Lactor? O senhor acredita em Deus?
Ele me olhou trêmulo e aterrorizado, mas não pronunciou uma única palavra!
Entendo, eu já passei por isso antes e sei que fica muito difícil para o caçador falar quando ele se torna a caça! Não é verdade? Eu perguntei sem obter resposta.
Âh!... Âh!... Ah!... Olhe senhor Lactor, eu vou lhe dizer uma coisa: eu acredito muito em Deus, porém não acredito que foi Deus que me salvou aquela noite. Deus quer a paz e não gosta de vingança, e se ele soubesse que eu voltaria para pegar o senhor, com certeza, ele me deixaria morrer ali naquela cova. O senhor não concorda? Eu perguntei.
Novamente não obtive resposta da figura apavorada no banco do carona.
Lúcifer! Lúcifer, o príncipe das trevas, - ele que gosta de vingança e de maldade, sim talvez ele tenha me salvado e permitido que eu voltasse para pegar o senhor. Eu falei.
Senhor Lactor, se por acaso o senhor tiver outra chance como aquela, o que é impossível, cave uma cova mais profunda. Como você foi idiota em acreditar numa conversa fiada como esta. Todas aquelas provas eram falsas, - eu as consegui revirando em lixo hospitalar, igualmente as fotos que também foram forjadas, estas pessoas não estão em meu poder. Eu continuei.
Ora, que graça teria quando eu escapasse daquela sepultura e fosse denunciá-lo às autoridades? O senhor perderia seu diploma, sua licença médica e, talvez, pegaria alguns anos de cadeia, isto, se o senhor não fosse absolvido devido ao seu prestígio e dinheiro. Não chegaria nem aos pés do sofrimento que meus amigos e eu passamos. Eu continuei.
- Quanto você quer para me deixar ir?... Vamos fale?... Implorou o infeliz.
Ah!... Ah!... Ah!... Uma vida não tem preço senhor Lactor, ainda mais se for uma vida desprezível como a sua. Viu só! É esta sensação de pavor do senhor que tornam as coisas mais interessantes! Disse eu triunfante.
Olhe, já chegamos, o local é este. É como diz um trecho da música do rei Roberto Carlos: “se a conversa é boa o tempo logo passa...”. Disse eu enquanto estacionava o carro.
Agora senhor Lactor, - eu precisarei agir rápido antes que passe o efeito da droga. Eu falei.
Peguei um par de algemas e prendi seus pulsos, na seqüência, retirei o homem do carro e o conduzi até o cativeiro. – O miserável se sentiu tão apavorado e indefeso diante da minha terrível presença que nem ofereceu resistência alguma, - estava sobre meu domínio!
Lá chegando apresentei cada canto do local para a vítima:
Olhe senhor Lactor, eu preparei este local especialmente para o senhor, o ambiente é bem familiar, eis aqui a sala de cirurgia, - como o senhor pode ver, igualmente a sua, ela é equipada com aparelhos e instrumentos cirúrgicos da melhor qualidade. E aqui é a mesa de cirurgia, - disse eu rasgando as roupas da vítima bruscamente com uma faca, e na seqüência, deitando-o e prendendo a vítima despida na mesa.
Só um detalhe que eu ia me esquecendo de falar senhor Lactor. O senhor deve ter notado que aqui não há crematório, - eu disse.
Está ouvindo o ladrar dos cães lá fora? Eu perguntei.
A resposta foi um berro pavoroso e abafado que ecoou na sala inteira! O homem gritava e tentava se libertar das correntes que vibravam fortemente.
Outra coisa, - eu falei. Assim como o senhor eu também não uso anestesia, - espero que o senhor seja um homem bem resistente para suportar a dor! E pode gritar à vontade, pois já é noite, o local é deserto, de difícil acesso e ninguém poderá ouvi-lo. Além disso, ninguém com o juízo perfeito vêm aqui. Eu continuei.
Bem, onde eu estava? Perguntei comigo. - Ah sim, está ouvindo o ladrar dos cães lá fora, senhor Lactor?
Pois é, são três Pit Bulls famintos e sedentos de sangue! Há muito tempo eles não comem e, é a primeira vez que vão provar carne humana!- Disse eu enquanto colocava a touca, a máscara, o avental e as luvas para executar minha tarefa com um imenso prazer.
Não se preocupe senhor Lactor, pois eu não vou vender os seus órgãos para o exterior, já que eu não sou um traficante de órgãos.
O material que eu usei foi apenas para atrai-lo, e o preço, - acho que nem eu mesmo rejeitaria. - Disse eu apanhando o bisturi e cortando o ventre no infeliz!
-Aaaaah!!! Seu desgraçado! Gritava o homem enquanto eu arrancar o seu rim com a pinça e jogava o órgão no balde.
Pronto, um já se foi, - agora eu vou arrancar o outro – disse eu para o temor do homem! Utilizando a mão esquerda para abrir o corte no seu ventre, - meti a pinça dentro da abertura e arranquei bruscamente o outro rim!
Outro berro pavoroso ecoou na sala:
- Aaaaah!!! – Meu Deus!... Pare, por favor, - eu lhe imploro – socorro!
Está doendo muito senhor Lactor? Por quanto tempo mais o senhor pode suportar a dor? – Perguntei ironicamente.
-Vamos ver como o senhor fica sem o olho esquerdo? – Perguntei com o bisturi em punho em direção ao obstáculo:
-Não... Não... Por favor, Aaaah! Gritou o homem.
Enfiei o bisturi e arranquei o olho esquerdo de sua órbita!
Parar, - agora que está ficando divertido, quantas destas súplicas o senhor ouviu e não as atendeu, - eu falei.
Remexi várias vezes a bandeja de utensílios, - peguei uma navalha com a mão ensangüentada e fiz sinais de que iria arrancar-lhe o escroto! – Deveriam ter visto a cara de espanto que ele fez.
- Não... Não... Chega... Pare, por favor! Gritava o homem.
Sabe senhor Lactor, - o senhor me deixou cicatrizes profundas não só no corpo, mas também na alma, - não posso ter piedade de um homicida como o senhor, - devo isto aos meus amigos, - eu falei.
Cortei, friamente, sua bolsa escrotal e lancei-os no balde! – O desgraçado grunhiu, estrebuchou e contorceu-se preso na mesa de operação como um porco sucumbindo no abate, - todo ensangüentado e mutilado.
Walace Lactor se resvalava em sangue, apresentava sinais de que iria perder a consciência, o que não me comoveu nem um pouco. – Senhor Lactor, vou precisar de mais uma parte do seu corpo para alimentar meus bichinhos lá fora, - eles estão famintos!
- Não... Não... Por favor, pare! Suplicava o infeliz.
Liguei a furadeira elétrica, aproximei-me, lentamente do homem, - como para prolongar seu medo e agonia, - então, introduzi a ponta da furadeira no seu joelho esquerdo e depois no joelho direito!
O eco do seu berro pavoroso ressonou lá fora, - misturou-se com o ladrar dos cães e dissipou-se na escuridão da mata!
Apanhando o boticão na mão esquerda e a tesoura cirúrgica na mão direita, - introduzi o instrumento na sua boca, prendi sua língua, puxei-a para fora, estiquei-a, cortei-a e a lancei no balde!
Lactor! Lactor! Lactor! – Gritava eu sem obter resposta ou sinais de vida.
Pousei a mão em seu peito, - o coração estava fraco, porém ainda pulsava. Apanhei o bisturi elétrico, liguei-o e comecei a cortar seu tórax e uma chuva de sangue respingou sobre mim!
Peguei o separador e escancarei o tórax do homem, - o coração pulsava lentamente. Peguei o bisturi e fiquei a ver por quais dos órgãos iria começar a remoção, quando de súbito, a carcaça contorceu-se convulsivamente, levantou o rosto com um único olho arregalado, deu um berro pavoroso, lançou uma golfada de sangue no meu rosto e ficou inerte sobre o aposento!
- Miserável! – eu exclamei limpando o rosto.
Então, com muita cautela removi seu coração, os pulmões, fígado e intestino, e os depositei no balde e o levei para alimentar os cães!
Lá fora me aproximei dos cães famintos presos na jaula. Os animais estavam sedentos de sangue e loucos para saciarem a fome.
Peguei a escada e subi até o teto da jaula e lancei os órgãos de Lactor por uma pequena abertura – foi um banquete farto, em poucos minutos não restou nada, nenhuma gotinha de sangue, - se naquele momento tivesse lançado sua carcaça para eles, com certeza, ter-na-iam devorada por inteiro, - mas não o fiz.
Terminado o banquete, fui ao carro, peguei um revólver no porta-luvas, voltei ao local e atirei nas cabeças dos cães que trepidaram até a morte.
A noite avançava rumo à madrugada e eu trabalhava apressadamente. Envolvi a carcaça de Lactor num saco preto e o depositei no porta-malas do carro e, limpei todas as manchas de sangue visíveis do carro.
Apanhei um galão de gasolina e molhei o local inteiro para apagar as provas do crime. Depois fui me lavar e trocar aquela roupa suja com o sangue imundo de Walace Lactor para ir embora.
Pouco antes de sair do local do crime, - lancei um olhar perspicaz e triunfante em tudo e gritei para o vento:
- Foi um ótimo trabalho, suas mortes foram vingadas meus amigos, foi um crime de mestre!
Acendi o fósforo e ateei fogo no local, em poucos segundos, tudo ardia em chamas, o fogo consumira o cativeiro e tudo seria reduzido a pó.
Entrei no carro e fui em direção ao rio Tietê. Lá chegando, rapidamente, tirei a carcaça do carro e lancei nas águas sujas do rio, que foi arrastado pela forte correnteza.
“Ah! Um demônio a menos na face da terra, este só fará maldades no inferno agora.” - Disse eu comigo mesmo.
Caminhei apressado até um telefone público próximo ao local e fiz uma denúncia anônima de uma casa noturna que aliciava jovens para o abastecimento de tráfico de órgãos humanos e que também era ponto de drogas.
Naquela madrugada voltei para casa com um sentimento de satisfação que não cabia dentro do peito, e dormi sem o mínimo remorso pela ação vil que eu praticara contra o homem.
Passados alguns dias do assassinato, minha culpa pouco me incomodava, não sentia remorso algum. Passeava, tranqüilamente pela praça, fui até a banca de jornal e uma manchete da imprensa local me chamou a atenção, - era a respeito de três crimes supostamente ocorridos na mesma madrugada em horários e locais diferentes, porém que teriam sidos cometidos pelo mesmo criminoso:
- Um resto de carcaça humana que foi encontrada pelo corpo de bombeiros sendo devorada pelos urubus às margens do rio Tietê, e que não faziam idéia de quem poderia ser, tampouco, seria possível a identificação do corpo pelo IML.
- Um misterioso incêndio de um suposto cativeiro próximo da serra da Cantareira, - a destruição foi completa e ninguém sabia quem era o dono do local e se o incêndio foi criminoso.
- E do fechamento de uma casa noturna clandestina que aliciava jovens para o tráfico de órgãos humanos e era ponto de drogas, - os donos foram presos graças a uma denúncia anônima.
Lendo esta manchete, - fiquei ainda mais orgulhoso de mim mesmo. Finalmente a honra de Ruth, Érick e a minha foram lavadas com sangue, e o maldito Walace Lactor e seus cúmplices tiveram o que mereceram.
E, em breve, as fotos do respeitável doutor Walace Lactor estariam estampadas nas páginas dos jornais, e é claro, ninguém nunca saberia que a tal carcaça humana se tratava dele. Sua clínica, com certeza, fora abandona às traças e pelo menos ali, pessoas não seriam mais mutiladas para este fim tão cruel.
Mas é estranho, apesar de ter concluído minha vingança, de ter desfeito qualquer suspeita e ter escapado impune, - ainda estou me sentindo amargo, cheio de ódio, - ódio por toda humanidade, por todas as coisas do mundo e, indiferente ao sentimento alheio e com vontade de repetir o mesmo ato.
Agora é quase meio-dia, vou voltar para casa, me barbear, tomara banho, trocar o curativo do meu olho, almoçar e aproveitar o final da tarde para andar de bicicleta no parque do Ibirapuera.
Fim
Orgia Gótica
Orgia gótica
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Lá fora, a noite estava bastante sombria, a neblina e a garoa cobriam a gélida cidade de Birmingham, nada de anormal, já que são sempre assim todas as noites de inverno inglesas. Em nossa casa, a fogueira da lareira estava acesa, aquecendo a sala. Tia Morgana cochilava na cadeira de balanço, ao lado da fogueira, e com o seu tricô sobre o colo.
Era quase meia-noite e todos os empregados da casa haviam se recolhido. Eu estava sentado na poltrona da sala e, até o presente momento, eu parecia estar num estado de transe, ou talvez, num estado de torpor causado por alguma droga, eu acho.
Eu sentia como se toda a minha vida começasse a partir daquele momento, apesar de não ter até ali nenhuma lembrança passada. Lembrava da casa, da tia Morgana, dos empregados, e da Michele, a minha esposa, que havia saído e até o momento não voltara. Mas era estranho, pois a minha lembrança limitara-se até ali - eu não tinha nenhuma recordação passada.
Apesar de muito preocupado como estava, não conseguia expressar tal sentimento, eu simplesmente estava em estado de plenitude.
Tia Morgana despertou de seu cochilo, levantou-se e dirigiu-se até a mim. – Já é tarde sobrinho, vamos dormir.
- Sim, tia, eu já vou, mas acho que vou esperar um pouco mais pela Michele e, a propósito, para onde ela foi que até agora não chegou?
- Não se preocupe, querido sobrinho, ela está bem. Por que você não vai dormir um pouco para descansar? E ela já deve estar chegando. Vamos dormir e amanhã conversamos.
Dito isso, tia Morgana recolheu-se em seus aposentos, mas eu percebi que no seu semblante tinha uma tristeza e uma preocupação.
Achei o comportamento da minha tia muito suspeito, pois nós nos dávamos bem e não tínhamos segredos. Pensei em chamá-la e perguntar se estava acontecendo alguma coisa, - mas preferi ficar ali esperando pela Michele.
Eu continuei sentado ali na poltrona da sala, tranqüilo e sereno, olhando a lenha queimar. Neste instante, fechei lentamente meus olhos e comecei a lembrar da época que Michele eu namorávamos.
Nós éramos um típico casal gótico, adorávamos ir ao cemitério de Birmingham nas madrugadas ermas e mortas para namorarmos, lermos as poesias de Lord Byron, tomarmos uísque e fazer amor em cima dos túmulos.
Nossos pais não aprovavam nossa conduta, queriam o fim do nosso namoro. Por este motivo, nos casamos escondidos e passamos a viver com minha tia Morgana, que era viúva, e vivia sozinha em sua mansão.
Um dos momentos mais marcantes do nosso amor foi numa certa noite, no cemitério de Birmingham, onde nós fizemos um pacto de sangue. Tirei do bolso uma pequena navalha, cortei o meu pulso e o dela, misturamos nossos sangues e juramos que nem mesmo a morte nos separaria. Acho que esta era a lembrança mais recente que eu tinha dela até aquele momento em que me encontrava ali na sala. De repente, comecei a sentir muito frio e, ao abrir novamente os olhos, percebi que não estava mais em casa, e sim, no cemitério de Birmingham, precisamente sentado numa sepultura.
A princípio, fiquei aterrorizado, “com mil demônios, como eu vim parar aqui?” – perguntei comigo mesmo, pois há poucos instantes eu estava na sala de casa!
Quando me pus a voltar para casa, caminhando perdido no meio das sepulturas e sem enxergar nada devido ao denso nevoeiro, percebi que uma imagem tomava forma no meio da neblina, quando se aproximava de mim.
Fiquei parado, esperando para ver quem era, e quando finalmente estava à minha frente, percebi que se tratava da minha amada Michele.
Eu peguei suas mãos e beijei-as delicadamente, depois beijei sua boca. Disse que eu a amava e que estava preocupado, que sentia a sua falta e também quis saber o que ela fazia no cemitério àquela hora da madrugada?
Então, ela disse que também me amava e que sentia muito a minha falta, e que nunca me deixaria.
Demo-nos as mãos, caminhamos lentamente pelo cemitério, depois nos sentamos numa sepultura e começamos a conversar. Eu falava que não entendia nada do que estava acontecendo comigo nos últimos momentos: o comportamento da tia Morgana, as minhas atitudes, meus esquecimentos, de como cheguei ali... Enfim, tudo.
- Calma, meu amor - ela dizia acariciando meu rosto com sua mão macia -, tudo ficará bem porque estamos juntos. – Você se lembra do nosso juramento?
- Sim - eu respondi. - “Nem mesmo a morte nos separará!”. Mas, Michele, já é tarde e está muito frio, meu amor. Você pode pegar uma gripe ou pneumonia, vamos para casa e amanhã você me conta direitinho o que estava fazendo aqui. É tudo muito estranho, pois eu nem sei como vim parar aqui. Eu estava em casa sentado ao lado da lareira, fechei os olhos por alguns minutos e, ao abri-los, acordei aqui. Se a tia Morgana acorda e descobre que nós não estamos em casa, ela pode ter um ataque. Venha, vamos voltar para casa.
- Eu gostaria muito, querido - ela respondeu. - Mas antes, será que este lugar não te lembra algo?
Eu entendi onde ela queria chegar. Michele queria recordar os velhos tempos de namoro, talvez todo aquele suspense não passasse de uma surpresa do destino, ou até mesmo da própria Michele, pois desde que nos casamos, não mais namoramos no cemitério.
Foi então que percebi um pequeno volume no bolso da calça. Tirei-o e era uma garrafinha com uísque. Deixamos de lado o imenso frio que fazia naquela noite, nos despimos e nos amamos ali mesmo.
Na manhã do dia seguinte, ao acordar, nós estávamos no nosso quarto. Novamente não me lembrei de como chegamos ali: simplesmente, estávamos lá. Lembrei-me da noite passada, da maravilhosa noite de amor com Michele, naquele cemitério, e parecia ter acordado de um sonho lindo.
Sentei na cama com cuidado para não acordar Michele, que dormia profundamente, pois a madrugada tinha sido exaustiva e eu queria que ela descansasse bem. Olhei para o relógio, eram dez horas, e provavelmente todos já estavam de pé.
Vesti o roupão e dirigi-me ao banheiro. Pelo caminho do corredor, ouvi vozes vindas lá debaixo; na sala, parecia haver um pequeno tumulto.
O problema parecia ser sério e despertou-me a curiosidade. Então desci até a sala de visitas vestido com o roupão mesmo para saber o que se passava.
Ao chegar à sala, tia Morgana estava com um delegado, três policiais e o coveiro do cemitério. Todos estes emanavam de seus semblantes um assombro, que também me contagiou.
- O quê acontece senhores? – eu perguntei. Tia Morgana pediu que eu sentasse no sofá, que ficasse calmo e começou a falar:
- Calma, querido sobrinho. Você acabou de receber alta da clínica, e o médico falou que você não pode ter emoções fortes!
- Que clínica? Quê médico? Do quê a senhora está falando, tia Morgana?
- Estou falando da Michele, querido. Quando ela morreu, logo após o enterro, você sofreu uma crise nervosa e ficou internado numa clínica por três meses.
- Calma tia, a senhora está muito nervosa -eu falei.
- Não. - Continuou ela. - A Michele morreu de leucemia e nesse período você ficou numa clínica, sendo tratado a base de calmantes.
- Tia - eu continuei. -Está tudo bem. Olhe, a Michele está viva, eu a vi.
- Não querido, a polícia e o coveiro estão aqui porque ontem à noite alguém entrou no cemitério, abriu a ataúde, violou o caixão e roubou o corpo. -É bizarro!
- Não, tia, deixe-me explicar: ontem à noite, àquela hora, quando a senhora foi se deitar, eu estive com a Michele no cemitério. Nós nos encontramos lá, passeamos e conversamos um pouco, mas não violamos nenhuma sepultura. Deve ter havido algum engano. Mas eu prometo para a senhora e os senhores que ontem foi a última vez que nós namoramos no cemitério.
Neste momento, todos eles ficaram assombrados com a minha declaração!
- Querido, a Michele está morta! - Insistiu a minha tia, completamente aturdida.
- Bom, já chega! - disse eu enfurecido - Já que vocês não acreditam em mim, eu os convido a irem até o meu quarto para verem que a Michele está dormindo lá.
Então, todos os ali presentes, sem excluir nenhum, acompanharam-me até o quarto. Eu segui à frente, enquanto todos me seguiam, incrédulos. Ao chegarmos, abri a porta, dirigi-me até o corpo coberto em cima da cama, puxei a coberta e a cena foi aberradora:
Diante de todos nós presentes estava o cadáver podre de Michele, morto há três meses, completamente nu, e molestado por mim. O odor era insuportável e os vermes comiam os restos da carne em decomposição.
No chão, estavam as minhas roupas e sapatos, sujos de lama, e, ao lado da cabeceira da minha cama, encontrava-se o pé-de-cabra que eu usara para romper as travas do caixão na noite anterior, e trazer o corpo para meu quarto.
E eu, tia Morgana, o coveiro, o grupo de policiais e os empregados, todos sem exceção, ficamos ali trêmulos e incrédulos, paralisados de espanto com aquela cena de terror e infâmia que eu causara.
Fim
Ronygley Carvalho Fonseca. Julho de 2007.
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Lá fora, a noite estava bastante sombria, a neblina e a garoa cobriam a gélida cidade de Birmingham, nada de anormal, já que são sempre assim todas as noites de inverno inglesas. Em nossa casa, a fogueira da lareira estava acesa, aquecendo a sala. Tia Morgana cochilava na cadeira de balanço, ao lado da fogueira, e com o seu tricô sobre o colo.
Era quase meia-noite e todos os empregados da casa haviam se recolhido. Eu estava sentado na poltrona da sala e, até o presente momento, eu parecia estar num estado de transe, ou talvez, num estado de torpor causado por alguma droga, eu acho.
Eu sentia como se toda a minha vida começasse a partir daquele momento, apesar de não ter até ali nenhuma lembrança passada. Lembrava da casa, da tia Morgana, dos empregados, e da Michele, a minha esposa, que havia saído e até o momento não voltara. Mas era estranho, pois a minha lembrança limitara-se até ali - eu não tinha nenhuma recordação passada.
Apesar de muito preocupado como estava, não conseguia expressar tal sentimento, eu simplesmente estava em estado de plenitude.
Tia Morgana despertou de seu cochilo, levantou-se e dirigiu-se até a mim. – Já é tarde sobrinho, vamos dormir.
- Sim, tia, eu já vou, mas acho que vou esperar um pouco mais pela Michele e, a propósito, para onde ela foi que até agora não chegou?
- Não se preocupe, querido sobrinho, ela está bem. Por que você não vai dormir um pouco para descansar? E ela já deve estar chegando. Vamos dormir e amanhã conversamos.
Dito isso, tia Morgana recolheu-se em seus aposentos, mas eu percebi que no seu semblante tinha uma tristeza e uma preocupação.
Achei o comportamento da minha tia muito suspeito, pois nós nos dávamos bem e não tínhamos segredos. Pensei em chamá-la e perguntar se estava acontecendo alguma coisa, - mas preferi ficar ali esperando pela Michele.
Eu continuei sentado ali na poltrona da sala, tranqüilo e sereno, olhando a lenha queimar. Neste instante, fechei lentamente meus olhos e comecei a lembrar da época que Michele eu namorávamos.
Nós éramos um típico casal gótico, adorávamos ir ao cemitério de Birmingham nas madrugadas ermas e mortas para namorarmos, lermos as poesias de Lord Byron, tomarmos uísque e fazer amor em cima dos túmulos.
Nossos pais não aprovavam nossa conduta, queriam o fim do nosso namoro. Por este motivo, nos casamos escondidos e passamos a viver com minha tia Morgana, que era viúva, e vivia sozinha em sua mansão.
Um dos momentos mais marcantes do nosso amor foi numa certa noite, no cemitério de Birmingham, onde nós fizemos um pacto de sangue. Tirei do bolso uma pequena navalha, cortei o meu pulso e o dela, misturamos nossos sangues e juramos que nem mesmo a morte nos separaria. Acho que esta era a lembrança mais recente que eu tinha dela até aquele momento em que me encontrava ali na sala. De repente, comecei a sentir muito frio e, ao abrir novamente os olhos, percebi que não estava mais em casa, e sim, no cemitério de Birmingham, precisamente sentado numa sepultura.
A princípio, fiquei aterrorizado, “com mil demônios, como eu vim parar aqui?” – perguntei comigo mesmo, pois há poucos instantes eu estava na sala de casa!
Quando me pus a voltar para casa, caminhando perdido no meio das sepulturas e sem enxergar nada devido ao denso nevoeiro, percebi que uma imagem tomava forma no meio da neblina, quando se aproximava de mim.
Fiquei parado, esperando para ver quem era, e quando finalmente estava à minha frente, percebi que se tratava da minha amada Michele.
Eu peguei suas mãos e beijei-as delicadamente, depois beijei sua boca. Disse que eu a amava e que estava preocupado, que sentia a sua falta e também quis saber o que ela fazia no cemitério àquela hora da madrugada?
Então, ela disse que também me amava e que sentia muito a minha falta, e que nunca me deixaria.
Demo-nos as mãos, caminhamos lentamente pelo cemitério, depois nos sentamos numa sepultura e começamos a conversar. Eu falava que não entendia nada do que estava acontecendo comigo nos últimos momentos: o comportamento da tia Morgana, as minhas atitudes, meus esquecimentos, de como cheguei ali... Enfim, tudo.
- Calma, meu amor - ela dizia acariciando meu rosto com sua mão macia -, tudo ficará bem porque estamos juntos. – Você se lembra do nosso juramento?
- Sim - eu respondi. - “Nem mesmo a morte nos separará!”. Mas, Michele, já é tarde e está muito frio, meu amor. Você pode pegar uma gripe ou pneumonia, vamos para casa e amanhã você me conta direitinho o que estava fazendo aqui. É tudo muito estranho, pois eu nem sei como vim parar aqui. Eu estava em casa sentado ao lado da lareira, fechei os olhos por alguns minutos e, ao abri-los, acordei aqui. Se a tia Morgana acorda e descobre que nós não estamos em casa, ela pode ter um ataque. Venha, vamos voltar para casa.
- Eu gostaria muito, querido - ela respondeu. - Mas antes, será que este lugar não te lembra algo?
Eu entendi onde ela queria chegar. Michele queria recordar os velhos tempos de namoro, talvez todo aquele suspense não passasse de uma surpresa do destino, ou até mesmo da própria Michele, pois desde que nos casamos, não mais namoramos no cemitério.
Foi então que percebi um pequeno volume no bolso da calça. Tirei-o e era uma garrafinha com uísque. Deixamos de lado o imenso frio que fazia naquela noite, nos despimos e nos amamos ali mesmo.
Na manhã do dia seguinte, ao acordar, nós estávamos no nosso quarto. Novamente não me lembrei de como chegamos ali: simplesmente, estávamos lá. Lembrei-me da noite passada, da maravilhosa noite de amor com Michele, naquele cemitério, e parecia ter acordado de um sonho lindo.
Sentei na cama com cuidado para não acordar Michele, que dormia profundamente, pois a madrugada tinha sido exaustiva e eu queria que ela descansasse bem. Olhei para o relógio, eram dez horas, e provavelmente todos já estavam de pé.
Vesti o roupão e dirigi-me ao banheiro. Pelo caminho do corredor, ouvi vozes vindas lá debaixo; na sala, parecia haver um pequeno tumulto.
O problema parecia ser sério e despertou-me a curiosidade. Então desci até a sala de visitas vestido com o roupão mesmo para saber o que se passava.
Ao chegar à sala, tia Morgana estava com um delegado, três policiais e o coveiro do cemitério. Todos estes emanavam de seus semblantes um assombro, que também me contagiou.
- O quê acontece senhores? – eu perguntei. Tia Morgana pediu que eu sentasse no sofá, que ficasse calmo e começou a falar:
- Calma, querido sobrinho. Você acabou de receber alta da clínica, e o médico falou que você não pode ter emoções fortes!
- Que clínica? Quê médico? Do quê a senhora está falando, tia Morgana?
- Estou falando da Michele, querido. Quando ela morreu, logo após o enterro, você sofreu uma crise nervosa e ficou internado numa clínica por três meses.
- Calma tia, a senhora está muito nervosa -eu falei.
- Não. - Continuou ela. - A Michele morreu de leucemia e nesse período você ficou numa clínica, sendo tratado a base de calmantes.
- Tia - eu continuei. -Está tudo bem. Olhe, a Michele está viva, eu a vi.
- Não querido, a polícia e o coveiro estão aqui porque ontem à noite alguém entrou no cemitério, abriu a ataúde, violou o caixão e roubou o corpo. -É bizarro!
- Não, tia, deixe-me explicar: ontem à noite, àquela hora, quando a senhora foi se deitar, eu estive com a Michele no cemitério. Nós nos encontramos lá, passeamos e conversamos um pouco, mas não violamos nenhuma sepultura. Deve ter havido algum engano. Mas eu prometo para a senhora e os senhores que ontem foi a última vez que nós namoramos no cemitério.
Neste momento, todos eles ficaram assombrados com a minha declaração!
- Querido, a Michele está morta! - Insistiu a minha tia, completamente aturdida.
- Bom, já chega! - disse eu enfurecido - Já que vocês não acreditam em mim, eu os convido a irem até o meu quarto para verem que a Michele está dormindo lá.
Então, todos os ali presentes, sem excluir nenhum, acompanharam-me até o quarto. Eu segui à frente, enquanto todos me seguiam, incrédulos. Ao chegarmos, abri a porta, dirigi-me até o corpo coberto em cima da cama, puxei a coberta e a cena foi aberradora:
Diante de todos nós presentes estava o cadáver podre de Michele, morto há três meses, completamente nu, e molestado por mim. O odor era insuportável e os vermes comiam os restos da carne em decomposição.
No chão, estavam as minhas roupas e sapatos, sujos de lama, e, ao lado da cabeceira da minha cama, encontrava-se o pé-de-cabra que eu usara para romper as travas do caixão na noite anterior, e trazer o corpo para meu quarto.
E eu, tia Morgana, o coveiro, o grupo de policiais e os empregados, todos sem exceção, ficamos ali trêmulos e incrédulos, paralisados de espanto com aquela cena de terror e infâmia que eu causara.
Fim
Ronygley Carvalho Fonseca. Julho de 2007.
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