terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O abutre

O abutre

Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.

O verão passado tinha sido um dos mais rigorosos dos últimos tempos. A estiagem castigava a mata, que já estava parecendo mais com um deserto do que uma floresta.
A vegetação estava seca pelo calor excessivo, e muitos lagos e rios secaram também. Faltava água e comida para muitos animais e, muitas espécies não resistiram e sucumbiram.
A princípio, isto foi vantagem para mim e outros companheiros de minha espécie, pois como carniceiros alimentavámo-nos dos inúmeros cadáveres de animais silvestres que se encontravam a farta pela mata. É o chamado equilíbrio da natureza, pois se não comêssemos a a carniça – o mundo seria um deposito de lixo.
Mas, o que no começo era fartura foi se transformando em miséria, já não havia tantos animais mortos na mata. E, os poucos que sobreviveram fugiram do local, entre eles, todos os companheiros de minha espécie, exceto eu. Não sei por que não o fiz. Achava muito difícil deixar o local onde eu nasci e acreditava em dias melhores.
Eu passava dias sobrevoando a mata seca com o estômago vazio e não via uma única criatura viva ou morta. A paisagem parecia um cemitério abandonado, pois só se viam as ossadas dos animais mortos pela seca, e de outros devorados por nós abutres.
Talvez não tivesse sido uma boa idéia ter ficado ali, talvez, eu devesse ter fugido com os meus companheiros para um local mais abastado (Eu pensei). Mas agora já era tarde. Há muito tempo não comia bem e, com certeza, não agüentaria uma longa jornada de vôo debaixo de sol forte.
Eu já me considerava abandonado à própria sorte-, era um abutre morto, que agora, ao invés de devorar cadáveres – eu seria o cadáver devorado pelos vermes da terra!
Numa manhã, quando eu estava pousado no alto do galho seco de uma árvore tive a atenção despertada por um barulho de carro e fiquei em alerta. Do alto da árvore pude ver um carro contornando o capim seco em direção a um vale, que ficava bem no interior da mata, e que até onde eu sabia espécie animal alguma vivia lá.
“Humanos aqui!” pensei comigo. É estranho, muito estranho, o que será que eles querem? O que fazem aqui? Eu nunca tinha visto humanos por aqui, será que estão caçando? Não, impossível.
Não há mais vida nesta mata. Resolvi segui-los à distancia, e quando o carro parou no suposto local, - próximo às margens do lago que ficava entre os rochedos e moitas do vale eu pousei numa rocha e fiquei espiando-os de longe. Para mim foi uma surpresa descobrir que a seca não havia castigado aquela parte obscura da mata.
Eles desceram do carro, eram dois homens bem robustos, saudáveis e de ótimo porte físico. De minha parte lamentei que os dois já não estivessem mortos e uma densa laiva escorreu de minha boca e evaporou-se na terra seca. Fazia tempo que não tinha uma refeição decente, e naquele instante fiquei ansioso em provar o exótico sabor da carne humana.
O local era aberto e se podia ouvir o menor ruído, então pude ouvir a conversa deles:
- Este é o local que lhe falei James, os diamantes estão no fundo deste lago – vamos pegar uma boa quantidade deles e ficaremos ricos, - disse um dos homens.
- Maravilha, Terence! Vamos armar acampamento aqui e começarmos a trabalhar agora mesmo, - disse o outro homem. Mas, diga-me Terence – como descobriu este local e que nele há diamantes? Perguntou James.
- É uma longa história meu caro James. Muitos historiadores e ambientalistas disseram que há muitos anos esta área era coberta de ouro e diamantes, então se realizaram várias expedições para explorarem estas riquezas e muitas espécies de animais foram mortas, parte da mata foi destruída, e por isso as autoridades locais proibiram as expedições nesta mata, mas agora com esta estiagem parece que eles se esqueceram do problema, e podemos pegar os diamantes à vontade sem a preocupação de sermos presos. Ah!Ah!Ah! – disse Terence às gargalhadas.
- De certa forma é um crime, podemos ser presos, pois invadimos uma área protegida pelo governo, se soubesse disso não teria vindo com você, - disse James.
- Escuta aqui, você não quer pegar as drogas dos diamantes, ficar rico e sair da miséria, - disse Terence com um olhar hostil segurando James pelo colarinho.
- Sim, eu quero – disse James.
- Então, cale a boca e vamos começar a trabalhar – gritou Terence.
E ambos descarregaram a bagagem do carro, armaram a barraca, montaram o acampamento e começaram a garimpar.
Terence vestiu o equipamento de mergulho e foi para o fundo do lago, enquanto James ficou à margem do lago com uma peneira em mãos. Ele mergulhava o instrumento até o fundo do rio e ia peneirando à procura dos diamantes.
O sol ardia no local, e eu, faminto, espreitava os homens a uma certa distãncia. Ao cair da tarde, eles saíram da água para descansarem e contarem os números de diamantes encontrados. Então Terence falou:
- Ótimo, já temos uma boa quantidade só no primeiro dia.
- Eu também acho – disse James concordando com o amigo.
Acenderam uma fogueira, pegaram alguns mantimentos, comeram, e em seguida, pegaram os sacos de dormir, vestiram-nos e dormiram.
A noite caiu e os dois homens dormiam profundamente, a fogueira já estava em brasa, então sobrevoei solenemente para não desperta-los e aproximei-me deles. Pousei há poucos metros de distância e fiquei velando o sono deles, e enquanto isso pensava:
- Ah se já estivessem mortos! Dariam um ótimo banquete. De repente, um deles despertou e começou a se mover bem lentamente, - era Terence.
Levantou-se, olhou para o companheiro que dormia profundamente e dirigiu-se, lentamente, até os sacos onde os diamantes estavam guardados. Ele enfiava a mão no saco, enchia-a com as pedras e deixava-as cair novamente no saco diante dos olhos. Ao mesmo tempo sussurrava em voz baixa:
- Durma idiota, durma que eu cuido dos meus diamantes, só mais dois dias – só amanhã e depois até pegarmos uma boa quantidade de diamantes, então vou matá-lo e ficar com tudo para mim.
Dito isto, Terence voltou para o saco de dormir e pegou no sono.
Que traidor, vai matar o próprio companheiro para ficar com os diamantes! Por um lado isto era bom para mim, pois se Terence matasse James eu teria o que comer, sim, isto era ótimo, e era só uma questão de tempo, de espera.
Na manhã seguinte, ao acordarem, os homens lavaram os rostos, tomaram café e se preparam para trabalharem.
Terence novamente vestiu seu equipamento de mergulho, e foi para o fundo do lago enquanto James continuou garimpando às margens do lago. Desta vez fui mais ousado do que as outras vezes, voei até à margem do lago e pousei grasnando em frente de James para chamar-lhe a atenção.
Ele me olhou de maneira desconfiada e disse:
- Se estiver com fome bichinho, é bom esquecer, pois meu sabor é muito ruim, e estou longe de morrer-, e continuou trabalhando.
Pobre tolo, - eu pensei. Se pudesse me comunicar com ele falaria que seus dias estavam contados, porém perderia minha refeição.
Percebi bolhas saindo da água, era Terence, que voltava à superfície, então voei e pousei no topo da barraca.
Terence emergiu e veio com James até a beira do lago com um saco na mão e perguntou a James o que era aquilo apontando em minha direção. – O que é aquilo?
- É só um abutre – respondeu.
- Mas que bicho horroroso, isto é um mau presságio. Esta é uma ave agoureira e traz má sorte-, você nunca ouviu falar de tragédias presenciadas ou assistidas por urubus?! Perguntou Terence horrorizado.
- É só crendice popular – respondeu James.
- De qualquer forma não permitirei que esta horrível criatura fique nos observando e nos agourando com seu olhar diabólico. – Disse Terence.
Apanhou uma pedra e atirou em mim. Por sorte eu estava há uma boa distãncia e a pedrada não me acertou em cheio, e então voei para mais distante e continuei observando os homens.
Que miserável! Eu exclamei-, bem que poderia ser este maldito que tivesse que morrer.
A tarde caiu-, os homens descansavam, comiam, bebiam e davam risadas ao lado da fogueira enquanto contavam os diamantes.
- Estamos ricos – gritava Terence erguendo o caneco com a bebida. O fundo do lago está repleto dessas preciosidades, nem que vivêssemos cem anos extrairíamos todos os diamantes do fundo, - continuava o homem.
- É, e o melhor é que por o local ser numa mata deserta fica muito mais seguro o nosso trabalho, pois quem imaginará encontrar estas riquezas aqui, - disse James meio entorpecido pela bebida.
A noite caiu e eles dormiram. Eu continuei de tocaia velando o sono deles e ansioso para o momento em que Terence matasse James e eu pudesse devorá-lo. Esta era a penúltima noite, amanhã Terence mataria o companheiro e eu teria uma farta refeição.
A madrugada avançou e, novamente, Terence levantou-se à surdina, aproximou-se dos diamantes e ratificou seu plano macabro:
-Ah, meus diamantes, amanhã serão só vocês e eu! E enquanto a James ah, - eu direi que se perdeu na mata, ou que fora devorado por algum animal, ou que morreu de malária. Diria que eu o alertara de que esta era uma área protegida, mas que ele não dera atenção a minha advertência e foi assim mesmo, isso, se alguém por ele perguntasse. Ninguém, praticamente, sabia que estávamos ali.
E eu, à distância esperava o momento, pacientemente, e, enquanto aguardava – pensava: muito genial esta tenebrosa ação está sendo testemunhada por mim-, faz jus às crendices populares que as desgraças são assistidas por entes agoureiros.
Terence voltou ao local para dormir.
Chegou a manhã, o dia do crime e da minha tão esperada refeição. Os homens se levantaram, lavaram os rostos e tomaram café. Então Terence disse:
- Hoje é o nosso último dia James-, vamos desmontar o acampamento e guardar as nossas coisas, vamos deixar só os equipamentos que precisaremos para recolhermos mais um pouco dos diamantes.
- Eu concordo Terence, vamos desmontar a barraca e deixar tudo pronto para a nossa partida – disse James.
Os homens começaram a desarmar a barraca e guardarem os equipamentos no carro. O sol raiava fortemente no céu, estava um dia bastante quente, o solo seco e arenoso ardia com o calor.
Quando o acampamento já estava desmontado, James apanhou uma vareta seca e cumprida, abriu o tanque de gasolina e verificou se tinham combustível suficiente para cruzarem a mata.
James apanhou o galão de gasolina e gritou para Terence que se preparava para mergulhar no lago:
- Terence acho que a gasolin que tem no carro nõa é o suficiente para atravessarmos a mata-, vou colocar o reserva.
- Sim, mas deixe isto para depois quando o sol esfriar mais, agora está muito quente e pode ser perigoso. Venha – vamos apanhar mais alguns diamantes. Disse Terence.
- Tudo bem – disse James. E como num deslize, James deixou o galão destampado à sombra encostado no pneu traseiro do carro e foi até á margem do lago.

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