O mutilador
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
A história que vou narrar é de uma vingança, uma questão de honra, a honra dos meus amigos Ruth e Èrick, e a minha honra, a nossa honra, que precisou e foi lavada com sangue, muito sangue e muita perversidade, maldade e ódio! Porém não deixa de ser de fato uma história de terror e morte. Nos últimos tempos eu fui um verdadeiro monstro, mais terrível, perverso e sanguinário do que se possa imaginar, por isso, se você não tiver nervos de aço, estômago e sangue frio para continuar lendo esta história, - pode parar aqui mesmo.
A noite estava bem agradável, não fazia muito calor e nem muito frio. Era um dia perfeito e eu estava muito ansioso por aquele momento.
Foram meses de investigações, negociações e planejamentos, e finalmente, a presa mordera a isca, tudo estava sobre meu controle e não poderia haver falhas.
Ah! Walace Lactor já estava morto e nem sabia, disso eu tinha certeza, porque uma pessoa ambiciosa e obcecada pelo dinheiro se torna uma presa fácil, mesmo se tratando de um homicida experiente como era Walace Lactor, - ele não sabia que estava negociando com a morte!
Diferente dele que arrancava os órgãos das pessoas e as matava para abastecer o tráfico de órgãos humanos e se enriquecer com ele, - o meu propósito era dar a ele uma amostra de seu próprio veneno. Faze-lo sentir não só na própria carne como também na alma, a mesma dor e o medo que meus amigos e eu, e tantas pessoas sentiram quando foram vítimas de sua perversidade.
Ele agia praticamente sozinho na cidade, porém de maneira astuta e cautelosa, nunca deixava rastros de seus crimes. As vítimas eram aliciadas numa casa de shows, que funcionava, clandestinamente, num local recôndito na cidade de São Paulo.
Os jovens iam ao local a fim de se divertirem, conhecer pessoas novas, curtir uma música eletrônica, beijar muito, tomar todas, fazer sexo com belas garotas, enfim, todo tipo de farra que uma casa noturna da cidade grande oferece.
Porém, o local funcionava como fachada para esconder o tráfico de órgãos humanos. No meio da madrugada, quando os jovens já estavam embriagados e extasiados, - eram conduzidos até o reservado. Lá, antes da transa, as prostitutas os dopavam e depois eles eram conduzidos para os confins da cidade onde funcionava a clínica clandestina de Walace Lactor.
A clínica de Walace Lactor era um verdadeiro holocausto, lá, não só se traficava órgãos humanos, mas realizavam-se abortos clandestinos também. O cativeiro era bem organizado apesar de pequeno. Possuía uma cela onde as vítimas ficavam presas, um quarto gelado onde os órgãos eram guardados até sua exportação, a sala de cirurgia era equipada com instrumentos cirúrgicos de primeira qualidade e a mesa de operação, e havia um cômodo equipado com uma fornalha elétrica onde funcionava uma espécie de crematório que Walace Lactor usava para se desfazer dos despojos humanos.
Àquela noite era muito especial para mim, pois depois de muito tempo e de muito trabalho duro, eu consegui fechar negócio, marcar um encontro, e ficar cara a cara com o meu algoz sem que ele me reconhecesse.
A pontualidade é algo que eu sempre admirei e preservei. O encontro estava marcado para as dezenove horas, no entanto, eu cheguei ao local meia hora antes e Walace Lactor já me aguardava pacientemente:
-Boa noite, - senhor Walace Lactor?
Sim. –Ele respondeu.
-Muito prazer! William Dickson, para servi-lo, senhor. –Disse eu, apertando-lhe a mão com firmeza e veemência.
O leitor não pode imaginar o sacrifício que fiz para conter, naquele momento, o júbilo de tirar meu estilete do bolso do meu sobretudo e finca-lo com toda a força no seu olho esquerdo e mata-lo de uma vez ali mesmo. Mas contive-me porque seria fácil demais, - ele não iria sofrer, - o que não era o que eu queria, além disso, o bar estava cheio e o local era bem movimentado.
Meu propósito era torturá-lo, mata-lo e escapar impune, por isso não poderia me descuidar, qualquer erro ali poderia ser fatal, - ele poderia desconfiar e, tudo iria por água abaixo. Então eu prossegui o diálogo:
-Desculpe-me não tirar o meu chapéu e os óculos escuros senhor Lactor, mas é que quando trato deste tipo de negócio em público, - procuro ocultar o máximo a minha imagem, se o senhor não se importar?...
- Não se preocupe, fique a vontade senhor Dickson, - trouxe o material do qual me falou? Ele perguntou.
Sim, claro, - eu trouxe sim, senhor. Eu respondi, - depositando sobre a mesa um note book com fotos de adolescentes arianos e sarados, e da suposta clínica que eu trabalhava.
- Aí estão as fotos dos adolescentes e da minha clínica que lhe falei. O local fica próximo da serra da Cantareira, um lugar bem seguro e discreto que não desperta nada de suspeito. As minhas cobaias estão bem seguras também. Eu falei.
-Como o senhor pode observar nas fotos todos gozam de boa saúde e vitalidade e, com certeza, nós vamos faturar uma boa grana com os órgãos deles, - eu continuei.
-Pode olhá-los à vontade enquanto eu peço dois martínis bem secos para nós comemorarmos nossa sociedade, é sempre bom fechar negócio com pessoas inteligentes como o senhor. –Eu falei - acenando com a mão para o garçom.
-Dois martínis bem secos, por favor. Eu pedi.
Particularmente senhor Lactor, eu acho bem mais fácil seqüestrar ou atrair crianças e adolescentes com dinheiro ou falsas promessas do que em prostíbulos. –Disse eu enquanto o garçom trouxe as bebidas.
Walace Lactor olhava o material com minucioso interesse!- Há quanto tempo o senhor está nesse negócio, senhor Dickson? Ele perguntou.
Já faz algum tempo, senhor Lactor, e posso garantir ao senhor que é um ótimo negócio, - o senhor não se arrependerá. Se a venda for internacional, dependendo do órgão e da necessidade do comprador, poderemos vendê-lo até por oito mil dólares. - Eu falei.
Certo, e quais as garantias que o senhor me dá para eu saber que não estou entrando numa fria? Ele perguntou.
-Senhor Lactor, por favor, estou negociando com o senhor há meses, - o senhor acha que se eu fosse algum repórter ou até mesmo um policial já não teria tido tempo suficiente para desmanchar o seu negócio e o colocado atrás das grades? O meu interesse com o senhor é totalmente profissional. Eu falei.
Sim, tem razão. - Ele respondeu.
-Então, por isso eu marquei este encontro aqui com o senhor, e trouxe este material para fecharmos negócio. - Eu gostaria que o senhor o olhasse e fosse comigo até a minha clínica para uma visita de reconhecimento, pois trabalho sozinho e quase não estou dando conta de tanto trabalho. Eu continuei.
Sim, eu o entendo senhor Dickson, - o senhor me parece ser de confiança. - Disse ele todo confiante e seguro de minhas boas maneiras – mas sem saber de minhas verdadeiras intenções!
-É isso mesmo senhor Lactor, - eu respondi com grande satisfação e entusiasmo.
Bom, eu gostei da sua proposta, acho um negócio seguro e não vejo motivo para recusar a sua oferta, está bem, eu aceito - negócio fechado!- Disse ele apertando a minha sem saber que, naquele momento, ele estava assinando sua sentença de morte.
-Ótimo senhor Lactor, então brindemos ao nosso sucesso e a nossa amizade! Disse eu.
Tilintamos os copos e tomamos o martíni.
-Deixe que eu pago a conta senhor Lactor, - eu falei.
Saímos do bar, entramos no meu carro e pegamos a estrada em direção a Serra da Cantareira. Pelo caminho conversávamos a respeito do negócio.
-Estou muito satisfeito por ter feito negócio com o senhor, a sua vida e integridade física agora me pertencem senhor Lactor! Eu falei.
E o miserável, que já começava a empalidecer, suar frio, oscilar, não só entendeu mais nada como já falava trêmulo e desenfreado:
-O que?... Por favor, fale mais baixo, - a minha cabeça vai explodir! Quem é você?... O que fez comigo?... O que quer de mim?... Para onde está me levando?... Ele perguntava com bastante dificuldade.
Calma, senhor Lactor. O narcótico que eu coloquei no seu martini não irá mata-lo, apenas o deixará indefeso até chegarmos à minha clínica. Eu falei.
O senhor estava tão distraído vendo as fotos que nem percebeu quando eu coloquei a droga no seu copo, - foi fácil demais – eu falei.
-Quem é você miserável?... Para onde estamos indo?... Ele perguntou.
Confesso que achei que me reconheceria quando nos encontrássemos novamente, senhor Lactor! Disse eu.
-O que?... Quem é você?... Responda?... Responda?... Responda seu desgraçado?... Falava o infeliz, trêmulo, suado e com a língua enrolada não só pelo efeito da droga, mas também pelo terror e com a desagradável surpresa!
Âh! Ah! Ah!... Permita-me que eu me apresente senhor Lactor, - disse eu tirando o chapéu e os óculos escuros para o espanto do infeliz!
Quando Lactor baixou o olhar em meu rosto começou a tremer mais freneticamente e a gaguejar:
Vo... vo... vo... você!... Impossível! Você não estava morto?! Ele perguntou.
Sem dúvida a falta do meu olho esquerdo na órbita me causava uma aparência horrenda, medonha, assustadora e monstruosa. Eu próprio temia a minha imagem, sofria diante de um espelho e sempre que podia – procurava evita-los.
Surpreso, senhor Lactor? Eu perguntei.
Isto não é tudo, olhe! Eu continuei. Levantei a lateral direita da camisa e mostrei uma enorme e monstruosa cicatriz na minha cintura!
Walace Lactor arregalou a boca e os olhos, horrorizado com o que viu, mas não entendeu nada.
-Não!... Não!... Você não é real, você está morto! Eu mesmo enterrei você aquela noite! Ele falou.
Senhor Lactor temos muito caminho pela frente, vamos recapitular tudo que aconteceu aquela noite – a noite que o senhor destruiu nossas vidas, - disse eu enquanto dirigia:
Tudo que Ruth, Érick e eu queríamos aquela noite era só nos divertirmos, mas graças aos seus cúmplices e ao senhor foi a pior noite de nossas vidas!
O senhor não imagina como foi terrível para eu ver a maneira cruel e sanguinária que o senhor matou os meus amigos! E não só os meus amigos, mas as outras cobaias vítimas de sua perversidade e ambição, - as marcas são profundas, - quase todas as noites, - acordo horrorizado sonhando com pessoas mutiladas pelo senhor. Até hoje posso ouvir as súplicas e os gritos de desespero de Érick e Ruth implorando, suplicando por suas vidas:
-Socorro! Pelo amor de Deus! Ajudem-me! Eu imploro!
E o senhor, friamente, os matou! Eu tenho guardado até hoje a imagem da pobre Ruth sendo dilacerada pelo seu bisturi e tesoura cirúrgica, e tendo seu coração, fígado e útero sendo bruscamente arrancados para abastecer o tráfico de órgãos humanos. E o pobre Érick:
Como ele chorou e implorou para ser poupado daquele martírio, aponto de urinar e vomitar na roupa enquanto seus rins eram extraídos com uma pinça! A maneira pela qual o senhor se livrou dos corpos, esquartejando-os e jogando seus despojos naquela fornalha elétrica até virarem cinzas.
E por fim foi a minha vez:
O senhor não pode imaginar o imenso terror, o tamanho da dor de sentir um bisturi entrando na carne, e eu ali amarrado numa mesa sem poder me defender, sentindo o rim e olho serem extraídos! Ah, que dor e sensação horrível de sentir seu olho sendo arrancado da órbita com uma pinça cirúrgica!
Mas naquela noite, senhor Lactor, - o senhor não poderia imaginar que a fornalha fosse enguiçar, e tampouco, que minha suposta parada cardíaca fosse um simples desmaio e que eu recuperaria os sentidos mais tarde, não é mesmo? Eu falei.
Além disso, o senhor estava cansado demais para me esquartejar, já que este, é um trabalho muito desgastante, não é? Eu perguntei.
Foi bem mais fácil o senhor ter me enterrado vivo naquele matagal, não é senhor Lactor? Eu continuei.
Diga-me uma coisa senhor Lactor? O senhor acredita em Deus?
Ele me olhou trêmulo e aterrorizado, mas não pronunciou uma única palavra!
Entendo, eu já passei por isso antes e sei que fica muito difícil para o caçador falar quando ele se torna a caça! Não é verdade? Eu perguntei sem obter resposta.
Âh!... Âh!... Ah!... Olhe senhor Lactor, eu vou lhe dizer uma coisa: eu acredito muito em Deus, porém não acredito que foi Deus que me salvou aquela noite. Deus quer a paz e não gosta de vingança, e se ele soubesse que eu voltaria para pegar o senhor, com certeza, ele me deixaria morrer ali naquela cova. O senhor não concorda? Eu perguntei.
Novamente não obtive resposta da figura apavorada no banco do carona.
Lúcifer! Lúcifer, o príncipe das trevas, - ele que gosta de vingança e de maldade, sim talvez ele tenha me salvado e permitido que eu voltasse para pegar o senhor. Eu falei.
Senhor Lactor, se por acaso o senhor tiver outra chance como aquela, o que é impossível, cave uma cova mais profunda. Como você foi idiota em acreditar numa conversa fiada como esta. Todas aquelas provas eram falsas, - eu as consegui revirando em lixo hospitalar, igualmente as fotos que também foram forjadas, estas pessoas não estão em meu poder. Eu continuei.
Ora, que graça teria quando eu escapasse daquela sepultura e fosse denunciá-lo às autoridades? O senhor perderia seu diploma, sua licença médica e, talvez, pegaria alguns anos de cadeia, isto, se o senhor não fosse absolvido devido ao seu prestígio e dinheiro. Não chegaria nem aos pés do sofrimento que meus amigos e eu passamos. Eu continuei.
- Quanto você quer para me deixar ir?... Vamos fale?... Implorou o infeliz.
Ah!... Ah!... Ah!... Uma vida não tem preço senhor Lactor, ainda mais se for uma vida desprezível como a sua. Viu só! É esta sensação de pavor do senhor que tornam as coisas mais interessantes! Disse eu triunfante.
Olhe, já chegamos, o local é este. É como diz um trecho da música do rei Roberto Carlos: “se a conversa é boa o tempo logo passa...”. Disse eu enquanto estacionava o carro.
Agora senhor Lactor, - eu precisarei agir rápido antes que passe o efeito da droga. Eu falei.
Peguei um par de algemas e prendi seus pulsos, na seqüência, retirei o homem do carro e o conduzi até o cativeiro. – O miserável se sentiu tão apavorado e indefeso diante da minha terrível presença que nem ofereceu resistência alguma, - estava sobre meu domínio!
Lá chegando apresentei cada canto do local para a vítima:
Olhe senhor Lactor, eu preparei este local especialmente para o senhor, o ambiente é bem familiar, eis aqui a sala de cirurgia, - como o senhor pode ver, igualmente a sua, ela é equipada com aparelhos e instrumentos cirúrgicos da melhor qualidade. E aqui é a mesa de cirurgia, - disse eu rasgando as roupas da vítima bruscamente com uma faca, e na seqüência, deitando-o e prendendo a vítima despida na mesa.
Só um detalhe que eu ia me esquecendo de falar senhor Lactor. O senhor deve ter notado que aqui não há crematório, - eu disse.
Está ouvindo o ladrar dos cães lá fora? Eu perguntei.
A resposta foi um berro pavoroso e abafado que ecoou na sala inteira! O homem gritava e tentava se libertar das correntes que vibravam fortemente.
Outra coisa, - eu falei. Assim como o senhor eu também não uso anestesia, - espero que o senhor seja um homem bem resistente para suportar a dor! E pode gritar à vontade, pois já é noite, o local é deserto, de difícil acesso e ninguém poderá ouvi-lo. Além disso, ninguém com o juízo perfeito vêm aqui. Eu continuei.
Bem, onde eu estava? Perguntei comigo. - Ah sim, está ouvindo o ladrar dos cães lá fora, senhor Lactor?
Pois é, são três Pit Bulls famintos e sedentos de sangue! Há muito tempo eles não comem e, é a primeira vez que vão provar carne humana!- Disse eu enquanto colocava a touca, a máscara, o avental e as luvas para executar minha tarefa com um imenso prazer.
Não se preocupe senhor Lactor, pois eu não vou vender os seus órgãos para o exterior, já que eu não sou um traficante de órgãos.
O material que eu usei foi apenas para atrai-lo, e o preço, - acho que nem eu mesmo rejeitaria. - Disse eu apanhando o bisturi e cortando o ventre no infeliz!
-Aaaaah!!! Seu desgraçado! Gritava o homem enquanto eu arrancar o seu rim com a pinça e jogava o órgão no balde.
Pronto, um já se foi, - agora eu vou arrancar o outro – disse eu para o temor do homem! Utilizando a mão esquerda para abrir o corte no seu ventre, - meti a pinça dentro da abertura e arranquei bruscamente o outro rim!
Outro berro pavoroso ecoou na sala:
- Aaaaah!!! – Meu Deus!... Pare, por favor, - eu lhe imploro – socorro!
Está doendo muito senhor Lactor? Por quanto tempo mais o senhor pode suportar a dor? – Perguntei ironicamente.
-Vamos ver como o senhor fica sem o olho esquerdo? – Perguntei com o bisturi em punho em direção ao obstáculo:
-Não... Não... Por favor, Aaaah! Gritou o homem.
Enfiei o bisturi e arranquei o olho esquerdo de sua órbita!
Parar, - agora que está ficando divertido, quantas destas súplicas o senhor ouviu e não as atendeu, - eu falei.
Remexi várias vezes a bandeja de utensílios, - peguei uma navalha com a mão ensangüentada e fiz sinais de que iria arrancar-lhe o escroto! – Deveriam ter visto a cara de espanto que ele fez.
- Não... Não... Chega... Pare, por favor! Gritava o homem.
Sabe senhor Lactor, - o senhor me deixou cicatrizes profundas não só no corpo, mas também na alma, - não posso ter piedade de um homicida como o senhor, - devo isto aos meus amigos, - eu falei.
Cortei, friamente, sua bolsa escrotal e lancei-os no balde! – O desgraçado grunhiu, estrebuchou e contorceu-se preso na mesa de operação como um porco sucumbindo no abate, - todo ensangüentado e mutilado.
Walace Lactor se resvalava em sangue, apresentava sinais de que iria perder a consciência, o que não me comoveu nem um pouco. – Senhor Lactor, vou precisar de mais uma parte do seu corpo para alimentar meus bichinhos lá fora, - eles estão famintos!
- Não... Não... Por favor, pare! Suplicava o infeliz.
Liguei a furadeira elétrica, aproximei-me, lentamente do homem, - como para prolongar seu medo e agonia, - então, introduzi a ponta da furadeira no seu joelho esquerdo e depois no joelho direito!
O eco do seu berro pavoroso ressonou lá fora, - misturou-se com o ladrar dos cães e dissipou-se na escuridão da mata!
Apanhando o boticão na mão esquerda e a tesoura cirúrgica na mão direita, - introduzi o instrumento na sua boca, prendi sua língua, puxei-a para fora, estiquei-a, cortei-a e a lancei no balde!
Lactor! Lactor! Lactor! – Gritava eu sem obter resposta ou sinais de vida.
Pousei a mão em seu peito, - o coração estava fraco, porém ainda pulsava. Apanhei o bisturi elétrico, liguei-o e comecei a cortar seu tórax e uma chuva de sangue respingou sobre mim!
Peguei o separador e escancarei o tórax do homem, - o coração pulsava lentamente. Peguei o bisturi e fiquei a ver por quais dos órgãos iria começar a remoção, quando de súbito, a carcaça contorceu-se convulsivamente, levantou o rosto com um único olho arregalado, deu um berro pavoroso, lançou uma golfada de sangue no meu rosto e ficou inerte sobre o aposento!
- Miserável! – eu exclamei limpando o rosto.
Então, com muita cautela removi seu coração, os pulmões, fígado e intestino, e os depositei no balde e o levei para alimentar os cães!
Lá fora me aproximei dos cães famintos presos na jaula. Os animais estavam sedentos de sangue e loucos para saciarem a fome.
Peguei a escada e subi até o teto da jaula e lancei os órgãos de Lactor por uma pequena abertura – foi um banquete farto, em poucos minutos não restou nada, nenhuma gotinha de sangue, - se naquele momento tivesse lançado sua carcaça para eles, com certeza, ter-na-iam devorada por inteiro, - mas não o fiz.
Terminado o banquete, fui ao carro, peguei um revólver no porta-luvas, voltei ao local e atirei nas cabeças dos cães que trepidaram até a morte.
A noite avançava rumo à madrugada e eu trabalhava apressadamente. Envolvi a carcaça de Lactor num saco preto e o depositei no porta-malas do carro e, limpei todas as manchas de sangue visíveis do carro.
Apanhei um galão de gasolina e molhei o local inteiro para apagar as provas do crime. Depois fui me lavar e trocar aquela roupa suja com o sangue imundo de Walace Lactor para ir embora.
Pouco antes de sair do local do crime, - lancei um olhar perspicaz e triunfante em tudo e gritei para o vento:
- Foi um ótimo trabalho, suas mortes foram vingadas meus amigos, foi um crime de mestre!
Acendi o fósforo e ateei fogo no local, em poucos segundos, tudo ardia em chamas, o fogo consumira o cativeiro e tudo seria reduzido a pó.
Entrei no carro e fui em direção ao rio Tietê. Lá chegando, rapidamente, tirei a carcaça do carro e lancei nas águas sujas do rio, que foi arrastado pela forte correnteza.
“Ah! Um demônio a menos na face da terra, este só fará maldades no inferno agora.” - Disse eu comigo mesmo.
Caminhei apressado até um telefone público próximo ao local e fiz uma denúncia anônima de uma casa noturna que aliciava jovens para o abastecimento de tráfico de órgãos humanos e que também era ponto de drogas.
Naquela madrugada voltei para casa com um sentimento de satisfação que não cabia dentro do peito, e dormi sem o mínimo remorso pela ação vil que eu praticara contra o homem.
Passados alguns dias do assassinato, minha culpa pouco me incomodava, não sentia remorso algum. Passeava, tranqüilamente pela praça, fui até a banca de jornal e uma manchete da imprensa local me chamou a atenção, - era a respeito de três crimes supostamente ocorridos na mesma madrugada em horários e locais diferentes, porém que teriam sidos cometidos pelo mesmo criminoso:
- Um resto de carcaça humana que foi encontrada pelo corpo de bombeiros sendo devorada pelos urubus às margens do rio Tietê, e que não faziam idéia de quem poderia ser, tampouco, seria possível a identificação do corpo pelo IML.
- Um misterioso incêndio de um suposto cativeiro próximo da serra da Cantareira, - a destruição foi completa e ninguém sabia quem era o dono do local e se o incêndio foi criminoso.
- E do fechamento de uma casa noturna clandestina que aliciava jovens para o tráfico de órgãos humanos e era ponto de drogas, - os donos foram presos graças a uma denúncia anônima.
Lendo esta manchete, - fiquei ainda mais orgulhoso de mim mesmo. Finalmente a honra de Ruth, Érick e a minha foram lavadas com sangue, e o maldito Walace Lactor e seus cúmplices tiveram o que mereceram.
E, em breve, as fotos do respeitável doutor Walace Lactor estariam estampadas nas páginas dos jornais, e é claro, ninguém nunca saberia que a tal carcaça humana se tratava dele. Sua clínica, com certeza, fora abandona às traças e pelo menos ali, pessoas não seriam mais mutiladas para este fim tão cruel.
Mas é estranho, apesar de ter concluído minha vingança, de ter desfeito qualquer suspeita e ter escapado impune, - ainda estou me sentindo amargo, cheio de ódio, - ódio por toda humanidade, por todas as coisas do mundo e, indiferente ao sentimento alheio e com vontade de repetir o mesmo ato.
Agora é quase meio-dia, vou voltar para casa, me barbear, tomara banho, trocar o curativo do meu olho, almoçar e aproveitar o final da tarde para andar de bicicleta no parque do Ibirapuera.
Fim
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
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